16 Junho 2008

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta»

Mateus 5,20-26.
Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»
«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo.
Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco’ será réu da Geena do fogo.
Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta.
Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão.
Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»






Comentário ao Evangelho feito por

S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia depois de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre a 1ª Carta aos Coríntios, nº 24

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta»

«Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão» (1Cor 10,17).
O que é este pão? O Corpo de Cristo. E no que se tornam os que o recebem? No Corpo de Cristo.
Não são muitos corpos, mas um só.
Quantos grãos de trigo entram na composição do pão! Mas quem vê esses grãos?
Estão no pão que eles formam, mas nada os distingue uns dos outros, de tão unidos que estão.
Assim estamos nós unidos uns aos outros e com Cristo.
Não há mais muitos corpos alimentados por diversos alimentos; nós formamos um só corpo, alimentado pelo mesmo pão.
Por isso Paulo disse: «Todos participamos do mesmo pão». Se participamos todos do mesmo pão, se estamos unidos nele ao ponto de nos tornarmos um só corpo, porque é que não estamos unidos por um mesmo amor, estreitamente ligados pela mesma caridade?
Voltai a ler a história dos nossos antepassados na fé e encontrareis este quadro notável: «A multidão dos que abraçavam a fé tinham um só coração e uma só alma» (Ac 4,32).
Mas, infelizmente, hoje não é assim. Nos nossos dias a Igreja oferece o espectáculo contrário; não vemos senão dolorosos conflitos, encarniçadas divisões entre irmãos... Estáveis longe dele, mas Cristo não hesitou em vos unir a Ele. E agora vós não vos dignais imitá-Lo para vos unirdes de todo o coração ao vosso irmão?...
Por causa do pecado, os nossos corpos formados do pó da terra (Gn 2,7) tinham perdido a vida e estavam sob a escravatura da morte; o Filho de Deus juntou-lhe o fermento da sua carne, Ele, livre de todo o pecado, numa plenitude de vida.
E deu o seu corpo em alimento a todos os homens, para que, renovados pelo sacramento do altar, tenham todos parte na sua vida imortal e bem-aventurada.
Retirado de Evangelho quotidiano.

09 Junho 2008

A Casa na rocha

Pregador do Papa: Palavra de Deus, rocha eterna
Comentário do Pe. Cantalamessa

Todos sabiam, no tempo de Jesus, que é imprudente construir a casa sobre a areia, no fundo dos vales, ao invés de fazê-lo no alto da rocha. Depois de cada chuva abundante forma-se, com efeito, quase de imediato, uma torrente que varre as casas que encontra à sua passagem.
Jesus baseia-se nesta observação, que provavelmente havia feito em pessoa, para construir a partir dela a parábola sobre as duas casas, que é como uma dupla parábola.
«Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha.»
Com simetria perfeita, variando só pouquíssimas palavras, Jesus apresenta a mesma cena na negativa: «Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um homem sem juízo, que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e ela desabou, e grande foi a sua ruína».
Construir a própria casa sobre areia quer dizer voltar a pôr as próprias esperanças e certezas em coisas instáveis e aleatórias que não se subtraem ao tempo e à sorte. Tais são: o dinheiro, o êxito, a própria saúde. A experiência coloca isso diante dos nossos olhos cada dia: é muito pouco o que basta – um pequeno coágulo no sangue, dizia o filósofo Pascal – para que tudo se derrube.
Construir a casa sobre a rocha quer dizer, ao contrário, fundar a própria vida e as próprias esperanças naquilo que «os ladrões não podem roubar nem a traça desfazer», sobre o que não passa.
«Os céus e a terra passarão – dizia Jesus –, mas minhas palavras não passarão».
Construir a casa na rocha significa, muito simplesmente, construir em Deus. Ele é a rocha. Rocha é um dos símbolos preferidos da Bíblia para falar de Deus: «Nosso Deus é uma rocha eterna» (Is 26, 4); «Ele é a rocha, perfeita é sua obra» (Dt 32, 4).
A casa construída sobre a rocha já existe; trata-se de entrar nela! É a Igreja.
Não, evidentemente, a que está feita à base de tijolos, mas a formada pelas «pedras vivas» que são os crentes, edificados na «pedra angular» que é Cristo Jesus. A casa na rocha é aquela da qual Jesus falava quando dizia a Simão: «Tu és Pedro e sobre esta pedra (literalmente ‘rocha’)» edificarei a minha Igreja (Mt 16, 18).
Fundar a própria vida sobre a rocha significa, portanto, viver na Igreja; não ficar fora só apontando o dedo contra as incoerências e os defeitos dos homens de Igreja.
Do dilúvio universal salvaram-se só poucas almas, as que haviam entrado com Noé na arca; do dilúvio do tempo, que tudo engole, só se salvam os que entram na arca nova que é a Igreja (cf. 1 P 3, 20). Isso não quer dizer que todos os que estão fora dela não se salvam; existe uma pertença à Igreja de outro tipo, «conhecida só a Deus», diz o Concílio Vaticano II com relação a quem, sem conhecer a Cristo, actua segundo os ditados da própria consciência.
O tema da palavra de Deus, que está sobre o que se celebrará em Outubro o próximo Sínodo sugere-me uma aplicação prática. Deus serviu-se da palavra para comunicar-nos a vida e revelar-nos a verdade. Os seres humanos usam com frequência a palavra para dar morte e esconder a verdade!
Na introdução a seu famoso Dizionario delle opere e dei personaggi, Valentino Bompiani relata o seguinte episódio. Em julho de 1938 aconteceu em Berlim o congresso internacional dos editores, do qual ele também participou. A guerra se palpava já no ar e o governo nazi mostrava-se mestre na manipulação das palavras com fins de propaganda. No penúltimo dia, Goebbels, que era ministro de Propaganda do Terceiro Reich, convidou os congressistas para a sala do Parlamento. Pediu aos delegados dos distintos países uma palavra de saudação. Quando chegou a vez de um editor sueco, este subiu ao estrado e com voz grave pronunciou estas palavras: «Senhor Deus, devo pronunciar um discurso em alemão. Careço de vocabulário e de gramática, e sou um pobre homem perdido no género dos homens. Não sei se a amizade é feminino ou se o ódio é masculino, ou se o horror, a lealdade e a paz são neutros. Assim, Senhor Deus, recobra as palavras e deixa-nos nossa humanidade. Talvez consigamos compreender-nos e salvar-nos». Estourou um aplauso, enquanto Goebbels, que havia captado a alusão, saía furioso da sala.
Um imperador chinês, interrogado sobre o que era o mais urgente para melhorar o mundo, respondeu sem duvidar: reformar as palavras! Queria dizer: devolver às palavras seu verdadeiro significado. Tinha razão. Há palavras que, pouco a pouco, foram esvaziadas completamente de seu significado original e cumuladas de um significado diametralmente oposto. Seu uso não pode mais que resultar prejudicial. É como pôr em uma garrafa de arsénico a etiqueta «digestivo efervescente»: alguém se envenenará. Os Estados dotaram-se de leis severíssimas contra os falsificadores de moedas, mas de nenhuma contra a falsificação das palavras.
A nenhuma palavra ocorreu o mesmo que à pobre palavra «amor». Um homem abusa de uma mulher e se justifica dizendo que o fez por amor. A expressão «fazer por amor» frequentemente representa o acto mais vulgar de egoísmo, no qual cada um pensa em sua satisfação, ignorando totalmente o outro e reduzindo-o a simples objecto.
A reflexão sobre a palavra de Deus pode-nos ajudar, como se vê, também a reformar e resgatar do vazio a palavra dos homens.

Retirado da ZENIT

29 Maio 2008

Ao partir do Pão

Andas triste, perturbado, descrente, desanimado, com vontade de desistir?
Repara então nestas palavras:
Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém;
e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. Lc 24,13-17
Vês, também eles caminhavam na vida entristecidos, de tal modo que nem conseguiam reconhecer Aquele que deles se aproximava.
Mas continua a ler estas palavras:
Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;
como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. Lc 24,19-21
Repara que estavam à espera de alguém que fosse resolver o problema das suas vidas, das suas dificuldades, das suas provações, do já e agora.
Queriam uma vitória sobre os outros, queriam não ter que se preocupar mais.
Pensavam apenas nesta sua vida do mundo, e esperavam alguém que fosse um chefe imbatível, que dominasse, que tudo vencesse pela força e pelo poder.
Ainda tinham ficado perturbados, mas já não conseguiam acreditar.
Repara:
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» Lc 24,22-24
Pois foi, ouviram o que as mulheres contaram como se fosse uma história qualquer, mas que não tinha muito crédito, porque ninguém tinha visto com os olhos aquele que eles esperavam.
Por isso, e ao verem que esse alguém que imaginavam de facto tinha morrido, e mais, que já tinham passado três dias e nada acontecia, não esperaram mais, tinham desistido e voltavam para a sua vida anterior.
Vês tu, que ao colocares a tua esperança nas coisas do mundo, nas coisas palpáveis, nas seguranças deste mundo, quando elas te falham ficas assim, triste, perturbado, descrente, desanimado e com vontade de desistir.
Mas, continua a ler as palavras deste episódio:
E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. Lc 24,27
Olha que mesmo tristes, perturbados, descrentes, não mandaram o homem embora e foram ouvindo o que ele lhes ia dizendo.
Afinal parecia que os seus corações ainda tinham por ali uma réstia de esperança, uma vontade de mudar.
De tal modo que, passou-se o seguinte:
Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. Lc 24,28-29
Não o deixaram ir embora!
Aquele homem tinha alguma coisa especial!
A sua companhia era boa e fazia nascer nos corações qualquer coisa de muito bom.
Se lhe pediram para ficar com eles é porque a expectativa era grande.
Ora repara:
E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Lc 24,30-31
Ao partir do Pão!
Reconheceram-No ao partir do Pão!
Vês como é importante a Eucaristia!
Vês que é na Eucaristia e em Eucaristia que podemos reconhecer Aquele que dá a vida, a vida em abundância!
Vês que é na Eucaristia e em Eucaristia que podemos reconhecer Aquele que dá a paz, não a paz que dá o mundo, mas a paz interior que se projecta na eternidade!
Vês que se O reconheces na Eucaristia não precisas de O ver com os olhos do corpo!
E agora medita bem no que aconteceu a seguir:
Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»
Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!». E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Lc 24,32-35
Foi-se a tristeza, a perturbação, o desânimo, a descrença!
Perceberam a alegria que é conhecer o Senhor!
Correm agora para a vida nova sem hesitações, e são eles que confirmam já sem dúvidas, sem medo, que o Senhor ressuscitou e se lhes deu a conhecer!
E não te arde o coração também, quando percebes que de mansinho, sem imposições Ele se te vai dando a conhecer pela Palavra até te levar ao reconhecimento sem dúvidas na Eucaristia, ao partir do Pão?
Onde está agora a tristeza, o desânimo, a descrença, se reconheces que o que Ele te dá não cabe neste mundo, pois vai muito para além dele?
Levanta-te e corre, corre para a vida nova que Ele te oferece e conta a todos o que te aconteceu, confirma a todos que Ele ressuscitou, afirma a todos, que todos O podem reconhecer ao partir do Pão, na Eucaristia.
Ah, e não te esqueças que é para todos, porque Ele quer ser companheiro de viagem de todos, de todos os que abrem o coração à Sua Palavra, ao Seu Amor.

21 Março 2008

Na Paixão e na Cruz nasce a Igreja


O grão de trigo desceu à terra e morto que foi, dá agora origem a uma nova planta.
Uma planta cheia de vida, cheia de frutos, de sementes, que irão morrer também para originarem novas plantas, que juntas na grande seara, vão dando fruto e semente, ocupando a terra que lhes foi dada.
Ali na Paixão e Morte de Jesus Cristo, o Messias Salvador, nascia a Igreja, grande seara para toda a terra.
Naquela última ceia o Senhor, ao lavar os pés dos Seus discípulos, mostra à Igreja a sua verdadeira missão: ensinar e colocar-se ao serviço de todos. Jo 13,1-20
Esta Igreja estava ao lado dEle, com Ele, em todos aqueles momentos.
Estavam os consagrados, os chamados a servirem na entrega total das suas vidas, o Papa, os Bispos, os Sacerdotes, os Diáconos, os Religiosos e Religiosas, representados nos Apóstolos que com Ele comiam à mesa. Lc 22,14-20
Estavam aqueles que O negam, mas depois se arrependem e acolhem o Seu perdão, representados em Pedro, naquela noite. Lc 26,69-75
Estavam aqueles que trabalham com o suor do seu rosto, representados naquele Simão de Cirene, chamado a ajudar a levar a Cruz, atrás de Jesus. Mc 15,21
Estavam as mulheres, as mães, e nelas as famílias, primeira catequese e encontro com Jesus Cristo, representadas por aquelas mulheres fiéis, (a Sua própria Mãe, que nos deu como Mãe), que nunca O abandonaram. Jo 19,25-27
Estavam os ladrões, os criminosos, os marginais, que abrindo o seu coração a Jesus Cristo, encontram a salvação, representados naquele ladrão crucificado com Ele. Lc 23,39-43
Estavam os marginalizados, os condenados pela sociedade, os proscritos, mas que reconhecem em Cristo o perdão e a salvação, representados por Maria Madalena, junto à Cruz. Jo 19,25
Estavam os que não acreditam, os que O repudiam, os que O condenam, mas que perante a experiência da Sua entrega de amor, se arrependem e O reconhecem, representados no centurião e na multidão que regressa a/à casa. Lc 23 47-46
Estavam os ricos, aqueles que por graça de Deus passam pelo buraco da agulha, representados por José de Arimateia, que Lhe entrega o sepulcro novo. Lc 23, 50-53
Estavam os homens de cultura, de ciência, os intelectuais, que descobrem nEle a Fé e a Razão, representados por Nicodemos, que oferece o perfume contra a corrupção. Jo 19,39
Estavas tu e estava eu, que nos curvamos perante a dimensão infinita de amor do nosso Deus, que se entrega por nós ao Pai, para nos libertar da lei do pecado pela força do Espírito Santo.
O nosso coração entristece-se, emudece, comove-se, mas deixa crescer nele um grito de alegria, que unido a toda a Igreja, vai espantar todo o universo:
Jesus Cristo, o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Ressuscitou e está vivo no meio de nós e em nós!
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Santa Páscoa para todos!

09 Fevereiro 2008

Evangelho do I Domingo da Quaresma


Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo, I da Quaresma.



Mateus 4, 1-11
O demónio, o satanismo e outros fenómenos relacionados são de grande actualidade e inquietam frequentemente a nossa sociedade. Nosso mundo tecnológico e industrializado está repletos de magos, bruxos urbanos, ocultismo, espiritismo, escrutinadores de horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos, assim como de autênticas seitas satânicas. Expulso pela porta, o diabo entrou pela janela. Ou seja, expulso pela fé, voltou a entrar com a superstição.
O episódio das tentações de Jesus no deserto, que se lê no primeiro domingo da Quaresma, ajuda-nos a oferecer um pouco de clareza a este tema. Antes de tudo, existe demónio? Isto é, a palavra “demónio” indica de verdade alguma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é simplesmente um símbolo, um modo de falar que indica a soma do mal moral do mundo, o inconsciente colectivo, a alienação colectiva e coisas pelo estilo? Muitos, entre os intelectuais, não crêem no demónio segundo o primeiro sentido. Mas se deve observar que grandes escritores e pensadores, como Goethe ou Dostoievski, levaram muito a sério a existência de satanás. Baudelaire, que não era certamente trigo limpo, disse que «a maior astúcia do demónio é fazer crer ele que não existe».
A principal prova da existência do demónio nos evangelhos não está nos numerosos episódios de libertação de possessos, porque na interpretação destes fatos pode haver influência de crenças antigas sobre a origem de certas doenças. Jesus tentado no deserto pelo demónio: esta é a prova. Provas são também os muitos santos que lutaram em vida contar o príncipe das trevas. Não são Quixotes que brigam contra moinhos de vento. Ao contrário: foram homens e mulheres concretos e de psicologia saudável.
Se muitos acham absurdo crer no demónio, é porque se baseiam em livros, passam a vida em bibliotecas ou no escritório, enquanto o demónio não se interessa por literatura, mas pelas pessoas, especialmente os santos. O que pode saber sobre satanás quem jamais teve nada a ver com sua realidade, mas só com sua ideia, isto é, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre satanás? Esses tratam habitualmente deste tema com grande segurança e superioridade, liquidando tudo como «obscurantismo medieval». Mas trata-se de uma falsa segurança. Como se alguém deixasse de temer o leão aduzindo como prova o fato de que viu muitas vezes sua imagem e jamais lhe deu medo. Por outro lado, é totalmente normal e coerente que não creia no diabo quem não crê em Deus. Seria até trágico se alguém que não crê em Deus acreditasse no diabo!
O mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos não é, no entanto, que o demónio existe, mas que Cristo venceu o demónio. Cristo e o demónio não são para os cristãos dois princípios iguais e contrários, como em certas religiões dualistas. Jesus é o único Senhor; satanás não é senão uma criatura que «se perdeu». Se lhe concede poder sobre os homens, é para que estes tenham a possibilidade de fazer livremente uma escolha e também para que «não se ensoberbeçam» (2 Co 12, 7), crendo-se auto-suficientes e sem necessidade de redentor algum. «Que loucura a do velho satanás – diz um canto espiritual negro. Atirou para destruir minha alma, mas errou o tiro e destruiu por outro lado o meu pecado.»
Com Cristo não temos nada a temer. Nada nem ninguém pode fazer-nos dano se nós não quisermos. Satanás – dizia um antigo padre da Igreja –, após a vinda de Cristo, é como um cão atado na árvore; pode latir e balançar quanto quiser; se não nos aproximamos, não pode morder. Jesus no deserto se libertou de satanás para libertar-nos de satanás! É a gozosa notícia com a qual iniciamos nosso caminho quaresmal para a Páscoa.


Retirado da ZENIT

30 Janeiro 2008

Uma Voz No Deserto


Mateus 3, 1-12

O coração da pregação de João Batista está contido nessa frase de Isaías, que repete a seus contemporâneos com grande força: «Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!». Isaías, para dizer a verdade, expressava: «Uma voz clama: no deserto, abri caminho ao Senhor» (Is 40, 3). Não é, portanto, uma voz no deserto, mas um caminho no deserto. Os evangelistas, aplicando o texto ao Batista que pregava no deserto da Judeia, modificaram a pontuação, mas sem mudar o sentido da mensagem.

Jerusalém era uma cidade rodeada pelo deserto: ao Oriente, os caminhos de acesso, enquanto se traçavam, facilmente desapareciam pela areia que o vento move, enquanto ao Ocidente se perdiam entre as asperezas do terreno para o mar. Quando uma comitiva ou um personagem importante devia chegar à cidade, era necessário sair e caminhar pelo deserto para abrir uma via menos provisória; cortavam as sarças, aplainavam os obstáculos, reparavam a ponte ou uma passagem. Assim se fazia, por exemplo, por ocasião da Páscoa, para acolher os peregrinos que chegavam da Diáspora. Neste dado, de fato, inspira-se João Batista. Está a ponto de chegar, clama, aquele que está acima de todos, «aquele que deve vir», o esperado os povos: é necessário traçar um caminho no deserto para que possa chegar.

Mas eis aqui o salto da metáfora à realidade: este caminho não se traça no terreno, mas no coração de cada homem: não se traça no deserto, mas na própria vida. Para fazê-lo, não é necessário pôr-se materialmente ao trabalho, mas converter-se: «Endireitai os caminhos do Senhor»: este mandato pressupõe uma amarga realidade: o homem é como uma cidade invadida pelo deserto; está fechado em si mesmo, em seu egoísmo; é como um castelo com um fosso ao redor e as pontes levantadas. Pior: o homem complicou seus caminhos com o pecado e aí permaneceu, seduzido, como em um labirinto. Isaías e João Batista falam metaforicamente de precipícios, de montes, de passagens tortuosas, de lugares impraticáveis. Basta chamar estas coisas por seus verdadeiros nomes, que são orgulho, humilhações, violências, cobiças, mentiras, hipocrisia, imundices, superficialidades, embriaguez de todo tipo (pode-se estar ébrio não só de vinho ou de drogas, mas também da própria beleza, da própria inteligência, de si mesmo, que é a pior embriaguez!). Então se percebe imediatamente que o discurso também é para nós, é para cada homem que nesta situação deseja e espera a salvação de Deus.

Endireitar um caminho para o Senhor ,portanto, tem um significado concretíssimo: significa empreender a reforma da nossa vida, converter-se. Em sentido moral, o que se deve aplanar e os obstáculos que se deve retirar são o orgulho – que leva a ser impiedoso, sem amor para com os demais – , a injustiça – que engana o próximo, talvez abduzindo pretextos de compensação para calar a consciência –, por não falar de rancores, vinganças, traições no amor. São vales cheios de preguiça, incapacidade de impor-se um mínimo de esforço, todo pecado de omissão.

A palavra de Deus jamais nos esmaga sob um monte de deveres sem dar-nos ao mesmo tempo a segurança de que Ele nos dá o que nos manda fazer. Deus, diz [o profeta] Baruc, «dispôs que sejam abaixados os montes e as colinas, e enchidos os vales para que se uma o solo, para que Israel caminhe com segurança sob a glória divina» [Ba 5, 7, N. da R.] Deus abaixa, Deus enche, Deus traça o caminho; é tarefa nossa corresponder à sua acção, recordando que «quem nos criou sem nós, não nos salva sem nós».


Comentário publicado na ZENIT do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia.

24 Janeiro 2008

Imaculada Conceição


Sem pecado

Com o dogma da Imaculada Conceição, a Igreja Católica afirma que Maria, por singular privilégio de Deus e em vista dos méritos da morte de Cristo, foi preservada de contrair a mancha do pecado original e veio à existência já totalmente santa. Quatro anos depois da definição do dogma pelo Papa Pio IX, esta verdade foi confirmada pela própria Virgem em Lourdes, em uma das aparições a Bernadete, com as palavras: «Eu sou a Imaculada Conceição».

A festa da Imaculada recorda à humanidade que existe uma só coisa que contamina verdadeiramente o homem, e é o pecado. Uma mensagem urgente para ser proposta. O mundo perdeu o sentido do pecado. Brinca-se como se fosse o mais inocente do mundo. Alinha com a idéia de pecado seus produtos e seus espetáculos para torná-los mais atrativos. Refere-se ao pecado, inclusive aos mais graves, com diminutivos: pecadinho, viciozinho. A expressão «pecado original» se utiliza na linguagem publicitária para indicar algo bem diferente da Bíblia: um pecado que dá um toque de originalidade a quem o comete!

O mundo tem medo de tudo, menos do pecado. Teme a contaminação atmosférica, as penosas doenças do corpo, a guerra atômica, atualmente o terrorismo, mas não lhe dá medo a guerra a Deus, que é o Eterno, o Onipotente, o Amor, enquanto Jesus diz que não se tema aos que matam o corpo, mas só a quem, depois de ter matado, tem o poder de lançar à geena (cf. Lc 12, 4-5).

Esta situação «ambiental» exerce uma tremenda influência até nos crentes que, contudo, querem viver segundo o Evangelho. Produz neles um adormecimento da consciência, uma espécie de anestesia espiritual. Existe uma narcose por pecado. O povo cristão já não reconhece seu verdadeiro inimigo, o senhor que o mantém escravizado, só porque se trata de uma escravidão dourada. Muitos que falam de pecado têm dele uma idéia completamente inadequada. O pecado se despersonaliza e se projeta unicamente sobre as estruturas; acaba-se por identificar o pecado com a postura dos próprios adversários políticos ou ideológicos. Uma pesquisa sobre o que as pessoas pensam que é o pecado daria resultados que provavelmente nos aterrorizariam.

Ao invés de livrar-se do pecado, todo o empenho se concentra hoje em livrar-se do peso de consciência relativo ao pecado; em vez de lutar contra o pecado, luta-se contra a idéia do pecado, substituindo-a por aquela – bastante diferente – do «sentimento de culpa». Faz-se o que em qualquer outro campo se considera o pior de tudo, ou seja, negar o problema ao invés de resolvê-lo, voltar a jogar e sepultar o mal no inconsciente em vez de extrai-lo. Como quem crê que elimina a morte suprimindo o pensamento sobre a morte, ou como quem se preocupa por baixar a febre sem curar a doença, da qual aquela é só um providencial sintoma. São João dizia que se afirmamos estar sem pecado, enganamos a nós mesmos e fazemos de Deus um mentiroso (cf. 1 João 1, 8-10); Deus, de fato, diz o contrário: que pecamos. A Escritura diz que Cristo «morreu por nossos pecados» (1 Cor 15, 3). Suprima o pecado e você torna vã a própria redenção de Cristo, destrói o significado de sua morte. Cristo teria lutado contra simples moinhos de ventos, teria derramado seu sangue por nada.

Mas o dogma da Imaculada nos diz também algo sumamente positivo: que Deus é mais forte que o pecado e que onde abunda o pecado superabunda a graça (cf. Rom 5, 20). Maria é o sinal e a garantia disso. A Igreja inteira, detrás d’Ela, está chamada a ser «resplandecente, sem que tenha mancha, nem rugas nem coisa parecida, mas que seja santa e imaculada» (Ef 5, 27). Um texto do Concílio Vaticano II diz: «Enquanto a Igreja na Santíssima Virgem já chegou à perfeição, pela qual se apresenta sem mancha nem ruga, os fiéis, no entanto, ainda que se esforçam por crescer na santidade, vencendo o pecado; e por isso dirigem seu olhar a Maria, que brilha ante toda a comunidade dos eleitos, como modelo de virtudes» (Lumen gentium, n. 65].

Comentário publicado na ZENIT do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia