04 Junho 2009

O amor e o prazer.

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Às 5 horas da manhã abri os olhos.
Mas foi um abrir daqueles que de imediato me disse que já não ia dormir mais.
Fiquei ali e comecei a rezar, aproveitando o silêncio da noite, a paz do momento.
Ao fim de algum tempo veio ao meu pensamento o episódio de Samuel, que foi chamado durante o sono.
Não fazia em mim qualquer comparação, pobre de mim, mas não deixei de perguntar no meu coração: Queres alguma coisa de mim, Senhor?
Senti-me um pouco envergonhado com a minha jactância de poder sequer pensar que Ele me tinha acordado para falar comigo, para me pedir algo que fosse.
Reza, Joaquim, reza que é o que deves fazer e deixa que Ele te adormeça, porque são horas de dormir, pois dentro em pouco tens de te levantar.
Mas nada, nem um pouco sequer de sonolência!
De mansinho duas palavras começaram a irromper na minha cabeça: o amor, o prazer.
Que queria isto dizer?
Com certeza que o amor é um prazer, um prazer sublime que vai muito para além da sensação física, da experiência de um momento.
O amor é algo que nos constrói, e se nos constrói, dá-nos prazer.
Sim, eu percebo que o amor de Deus nos enche e nos constrói, porque dá sentido ao nosso ser, sobretudo quando abrindo-nos a esse amor, também amamos a Deus, com o amor que Ele nos dá e nos faz experimentar, tornando-se uma delícia, um prazer para as nossas vidas.
Sim, sim, é esse amor que Ele nos dá que nos enche e completa, mas a palavra prazer continuava a surgir, mas com uma insistência de prazer físico.
Sabes, quando amas alguém, com esse amor eros, que se dá e recebe na totalidade da entrega, sentes prazer, o prazer de estares com a pessoa amada, que te faz sorrir, que te faz sentir alegre e em paz, mas que depois e ainda se completa na união física que te leva a experimentar o prazer sensorial, o prazer que te é próprio da humanidade.
Mas até esse prazer físico, repara que é continuado depois mesmo de acabar, ou seja, passa do sentir físico, para um sentir espiritual, um sentir pensado, porque reside no amor do amado e ao amado.
Repara agora tu, que tantas coisas já experimentaste.
Numa relação fortuita, apenas de um momento, movida mais pela urgência do corpo, do que pela vontade do espírito, alguma vez experimentaste esse prazer continuado, ou pelo contrário, esgotado o prazer físico, nada mais ficou do que uma recordação que às vezes até queres rapidamente apagar?
Mas se assim sentimos, não será tempo de pensarmos, que nessa relação fortuita separámos corpo e espírito, e por isso mesmo o prazer é efémero, e como tal não te completa, não te constrói, porque não é amor?
Não, não queres envolver-te em pensamentos filosóficos, mas apenas e tão só tentares perceber o que te quero dizer.
A fonte do amor é Deus, porque foi Deus que te amou primeiro e assim te ensinou a amar.
Não podes amar sem que o amor de Deus esteja em ti, porque Ele é o amor e é n’Ele que o amor se completa.
Mas não é, nem podia ser apenas o amor d’Ele por ti, e o teu amor por Ele, mas sim e também, todos os que Ele ama, (e são todos), e todos os que tu amas, porque amas com o Seu amor, porque se permaneces no Seu amor, também amas com o Seu amor.
Então repara, se permaneces no Seu amor, quando amas com esse amor eros, também é com o Seu amor que tu amas e és amado, e por isso esse amor é abençoado pela plenitude de Deus e assim tudo o que vem desse amor não tem fim, ou seja, não é um só momento, mas é toda uma vida, que depois da passagem continua no amor eterno.
E por isso, repara mais uma vez, o prazer mesmo físico é abençoado pelo amor de Deus em ti e no outro, portanto torna-se completo, e projecta-se inteiramente na tua vida e na vida do outro, ultrapassando a barreira do físico, para ser vivido e sentido também no espírito.
Ora se o teu corpo é capaz de um tal prazer que ultrapassa a barreira da tua humanidade física, é porque ele é querido por Deus e por isso mesmo um “sacrário” do amor de Deus em ti, para o outro e do outro para ti.
Como podes então tu profanar o teu corpo com um prazer que não vem do amor abençoado por Deus?
Seria o mesmo que servires-te de um sacrário para guardar algo que não fosse o Pão Consagrado! O sacrário deixaria então de ser sacrário!
Teria a forma de sacrário, até lhe podiam chamar sacrário, mas não o era, porque não cumpria a sua “plenitude”, que é guardar o Corpo de Cristo dado como alimento ao homem.
Por isso, quando usas o teu corpo numa relação fortuita, apenas tens um prazer físico, efémero, sem amor, e sem amor o teu corpo não cumpre a sua missão de amar com todo o teu ser, físico e espírito, por isso não te completas, por isso o prazer morre no acto físico e não se projecta mais além.
O teu corpo “separa-se” do teu espírito e é apenas carne, carne que morre sem vida para depois.
É como o sacrário onde colocaram outras coisas que não o Pão Consagrado.
Está lá, mas não existe como sacrário, porque não contém o amor.
Entendes agora porque é que o prazer não pode ser separado do amor, nem o amor do prazer.
Entendes agora porque é que Deus quer que o homem tenha prazer na sua união física com a pessoa amada.
Porque se o amor espírito enche o espírito da pessoa, o prazer físico torna o amor presente no físico da pessoa.
E espírito e físico não podem ser separados!
Se o forem o homem sente-se dividido, e Deus ama o homem todo e não apenas uma parte do homem, e sem Deus o homem não tem amor.
Podia dizer-te ainda que na vivência deste amor completo, espírito e físico, em que Deus está presente e é permanência, o homem é chamado à criação, é chamado a prosseguir todos os dias a obra de Deus, e que sem o fazer também não completa o amor que Deus lhe dá, para O amar e amar os outros, mas por agora fica a meditar na extraordinária beleza deste amor humano, que só o é, porque é também divino por vontade de Deus.


28 de Abril de 2009
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15 Abril 2009

DIA DE LOUVOR






COMUNIDADE LUZ E VIDA

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DIA DE LOUVOR

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ANFITEATRO PAULO VI - FÁTIMA

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10 de Maio de 2009

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Invoquei o Senhor com toda a confiança;
Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor.


Salmo 40

Queremos que este dia, como nos diz o salmo, seja uma acção de graças seguida de prece. Para isso teremos como pregador do Dia de Louvor o Pe Filipe Lopes coordenador da Comunidade Luz e Vida.



Inscrições

As inscrições são feitas por telefone ou junto da comunidade até ao dia 30 de Abril

Horário para telefonar

Todos os dias feriais: de manhã das 10h às 12h e à tarde das 15h às 18h

Limite de Inscrições

Só se aceitam inscrições até a sala estar cheia. Nessa situação, como tem acontecido, não aceitamos mais inscrições, mesmo dentro do prazo.

Oferta Cada crachá 5€ ( não se entregam crachás no secretariado )

Telefone 236 931 251



Programa



08h30 - Abertura das portas e acolhimento

09h00 - Louvor da manhã

10h00 - Primeiro ensinamento ( Pe Filipe )

11h00 - Intervalo

11h30 - Oração comunitária (louvor, petição...)

12h30 - Almoço

14h00 - Louvor

15h00 - Segundo ensinamento ( Pe Filipe )

15h45 - Intervalo

16h15 - Celebração da Missa pela cura espiritual, emotiva, psíquica e física

17h15 - Adoração ao Santíssimo com um grande louvor a Cristo Vivo


18 Março 2009

O Perdão - Setenta vezes sete.

Mateus 18,21-35

Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino do Céu é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo ao princípio, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os filhos e todos os seus bens, a fim de pagar a dívida. O servo lançou-se, então, aos seus pés, dizendo: 'Concede-me um prazo e tudo te pagarei.' Levado pela compaixão, o senhor daquele servo mandou-o em liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: 'Paga o que me deves!' O seu companheiro caiu a seus pés, suplicando: 'Concede-me um prazo que eu te pagarei.' Mas ele não concordou e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto lhe devia. Ao verem o que tinha acontecido, os outros companheiros, contristados, foram contá-lo ao seu senhor. O senhor mandou-o, então, chamar e disse-lhe: 'Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo suplicaste; não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?' E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração.»

Jesus Cristo fala-nos do perdão.
Utiliza este modo de o dizer, que não devemos perdoar sete vezes, mas sim setenta vezes sete, como forma de nos ensinar que o perdão não deve ter limite, que não se pode medir o número de vezes que se perdoa, que não se esgota nas poucas ou muitas vezes que perdoamos.
Devemos lembramo-nos que muitas vezes temos frases como: Já te perdoei muitas vezes agora chega! Ou: Já lhe perdoei tantas vezes e não aprende, por isso não vale a pena continuar a perdoar.
A verdade é que o Senhor nos diz que devemos perdoar sempre, o que não significa que não devamos correctamente, com amor, chamar a atenção daqueles que nos ferem e magoam com as suas ofensas, sobretudo se são repetidas e sem emenda.


Mas não nos compete a nós julgar, nem sequer decidirmos quantas vezes são demais, porque também nós pecamos, tantas e tantas vezes repetidamente, e o Senhor sempre, sempre nos perdoa.
Não podemos nós saber quão forte é a tentação que leva os nossos irmãos e irmãs a ofenderem-nos, a magoarem-nos, mas sabemos muito bem que há tentações nas nossas vidas em que caímos repetidas vezes, por isso, quem somos nós para julgar os outros se nós próprios também não somos perfeitos?
Mas há outros pensamentos que traduzimos muitas vezes em frases e que precisamos de perceber até que ponto é que não são um verdadeiro perdão, ou que são apenas uma “imitação” de perdão.
Por exemplo, quando dizemos, que perdoar, perdoamos, mas não esquecemos.
Este não esquecer traz normalmente consigo uma atitude não de perdão, mas sim de reserva, perante aquele ou aquela que nos fez mal.
No fundo estamos a dizer que aquela ofensa ficará sempre como uma mágoa em nós e que provavelmente numa outra oportunidade somos capazes de atirar à cara daquela pessoa a ofensa que nos fez.
E isso não é perdoar!
Como perdoar também não é esquecer!
Deus nos deu uma memória e essa memória não pode ser apagada por nossa vontade.
A questão não está em esquecer a ofensa, a questão está em que a memória dessa ofensa não nos magoe, não nos fira, porque nós já perdoamos a quem nos ofendeu e portanto fizemos as pazes dentro de nós.
E para isso é preciso a nossa vontade, mas também é preciso muita oração.
O acto de perdoar, é um acto da nossa vontade, iluminado pela graça de Deus.


Muitas vezes ao princípio até nos parece que não estamos a ser sinceros, ou seja, dissemos que perdoámos, mas cá dentro de nós parece que não, que ainda temos algum ressentimento para com quem nos ofendeu.
Mas isso é normal, porque nós somos humanos e imperfeitos e há ofensas mais fáceis de perdoar e outras mais difíceis, porque há ofensas que magoam um pouco, mas há outras que magoam muito.
Então é preciso rezar com muita perseverança por aqueles que nos ofenderam, e que pela graça de Deus o perdão seja presença constante em nós.
É o Espírito Santo que, à medida que vamos rezando pelos que nos ofendem, vai colocando a paz nas nossas vidas, e nos vai fazendo compreender que aqueles que nos ofenderam são nossos irmãos que fraquejaram naquele momento, como nós já fraquejámos em tantos momentos.

«Digo-vos, porém, a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam.» Lc 6,27-28
No entanto, amar os nossos inimigos, amar aqueles que nos ofendem, não é a mesma coisa que amar os nossos familiares ou amigos.
Como o amor dos esposos não é a mesma coisa que o amor dos pais pelos filhos, ou o amor entre irmãos, ou o amor que os amigos têm uns pelos outros.
Amar aqueles que nos ofendem significa estar disponível para eles, ajudá-los se precisarem de nós, não guardar rancor, nem ressentimento em relação a eles.

Mas não podemos falar do perdão sem nos colocarmos do outro lado, ou seja, do lado daqueles que ofendem, que magoam, que ferem os outros com palavras, com gestos, com atitudes.
Porque também, com certeza, cada um de nós já ofendeu alguém, muito ou pouco, e precisou de sentir o perdão daqueles que ofendeu para ter paz na sua vida.
É que podemos falar e meditar sobre os passos que temos de dar para perdoarmos aos outros, mas temos também que falar e meditar nos passos que temos que dar para pedirmos perdão aos outros.
Porque só quem é capaz de pedir perdão é que é capaz de perdoar.

Alguém pode dizer que na sua vida nunca magoou ninguém?
Claro que não, porque como pais, ou como filhos, como marido ou como mulher, como amigos ou conhecidos, como patrões ou empregados, ou até com alguém que nem conhecemos bem mas de quem já dissemos mal, às vezes apenas porque repetimos o que alguém nos disse, por todos esses motivos já ofendemos alguém com certeza.
Então precisamos de saber vencer o nosso orgulho, precisamos de nos saber confrontar com o nosso erro, não arranjando desculpas para o que fizemos, e pedirmos perdão a quem ofendemos.
E quando vivemos esta verdade de que também nós ofendemos os outros e temos de pedir perdão, também compreendemos melhor aqueles que nos ofenderam, e com mais facilidade podemos perdoar, como fomos perdoados.
Mas aqui, sobretudo quando ofendemos, temos que ver ainda uma outra dimensão do perdão e que é o perdão a nós próprios.
Porque quando ofendemos alguém e nos apercebemos disso, ficamos envergonhados e recriminamo-nos, tendo muitas vezes dificuldades em percebermos como fomos capazes de fazer, de cometer essas ofensas.
Então temos que perceber que o amor de Deus é muito superior aos nossos pecados e se Ele nos perdoa também nós nos devemos perdoar, porque se assim não fizermos é como se estivéssemos a negar o perdão de Deus a nós próprios.
Por vezes depois de uma vida desregrada como a que eu tive antes da minha conversão, temos alguma coisa que quase nos mete medo, quando pensamos em tantas coisas más que fizemos e como é possível que Deus nos perdoe.
E então temos dificuldades em perdoarmo-nos, como se aquilo que fizemos cortasse para sempre a nossa comunhão com Deus.
Temos então de acreditar firmemente que o amor de Deus é muito maior que o nosso pecado e que Ele nos ama mesmo quando nós não O amamos.
Quando pela graça da Confissão percebemos, aceitamos e vivemos o perdão de Deus, o amor de Deus, percebemos então que sendo filhos de Deus, recebemos d’Ele o perdão para nós e para os outros.
Em paz com nós próprios, podemos também pedir e fazer a paz com os outros.
É isso aliás que dizemos no Pai Nosso, dirigindo-nos ao Pai dizendo, “perdoai-nos como nós perdoamos”.

E não é isso o que nos diz a parábola que Jesus Cristo nos conta no Evangelho?
O senhor perdoou aquele servo, mas ele não foi capaz de perdoar àquele que lhe devia. A sua falta de perdão ao outro acabou por cair em cima de si próprio. Ao não perdoar também não foi perdoado.
Mesmo interiormente, nas nossas vidas, quando não perdoamos e vivemos no rancor e no ressentimento, apenas fazemos mal a nós próprios.
Porque a falta de perdão leva ao rancor, ao ressentimento, à vontade de vingança, e todos estes sentimentos envenenam as nossas vidas.
Passamos a viver amargurados por causa daquele que nos ofendeu, e se nas nossas vidas temos de nos cruzar permanentemente com aquele que nos ofendeu, a ferida é reaberta, volta a magoar-nos, a ferir-nos, e às vezes vai tão longe esse sofrimento, que nos faz fazer coisas de que depois nos arrependeremos e que podem desgraçar as nossas vidas, como por exemplo, agir contra a vida daquele que nos ofendeu.

E Deus sabe isto tudo e por isso nos diz que devemos perdoar sempre, sem medida nem dimensão, porque Ele sabe que só o perdão traz paz, serenidade e felicidade às nossas vidas.
Porque Ele sabe que só perdoando podemos viver a vida como Ele mesmo nos pede no Seu mandamento maior:
«Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos».

19 Fevereiro 2009

A Conversão

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Muitas vezes nos perguntam sobre a conversão que Deus opera nas nossas vidas.
Perguntam-nos por vezes se vimos alguma luz ou qualquer outra coisa desse tipo, qualquer coisa assim transcendental.
A verdade é que muita gente pensa que uma conversão se dá porque a pessoa viu uma luz, ou viu algo assim como que sobrenatural.
Deve estar na nossa imaginação a descrição da conversão de Saulo/Paulo e então julgamos que acontece assim, com uma visão de luz e num momento muito específico.
Mas a verdade é que Deus não anda por aí a “cegar” as pessoas com luzes vindas do “além”, nem a conversão é um momento específico marcado no tempo.
A conversão não vem de fora para dentro, mas acontece sim de dentro para fora.
A conversão tem sim algo de transcendente e que é a resposta de Deus à procura do homem.
E essa resposta de Deus é o dom da Fé a que o homem em conversão responde, aceitando, reconhecendo e vivendo a Fé como uma constante da sua vida, e assim acredita, entrega-se, confia e espera no Deus que vem ao seu encontro para o salvar, confirmando no viver do homem a liberdade em que o criou.
E a conversão não é um momento, mas sim uma vida, um dia a dia, um caminhar, um andar para a frente e às vezes para trás.
A conversão é uma abertura à presença de Deus na nossa vida e à disponibilidade para a mudança que Essa presença implica em nós, no nosso proceder, nas nossas prioridades, no nosso viver do dia a dia.
A conversão não é a mudança daquilo que nós somos como seres humanos, das características especificas de cada um, do feitio de cada um, porque se assim fosse seriamos todos iguais e Deus criou-nos todos diferentes, apenas iguais na dignidade de todos sermos Seus filhos.
A conversão leva-nos a potenciar os talentos que Deus nos deu e a tentarmos controlar as nossas fraquezas os nossos defeitos.
A conversão leva-nos a olhar para os outros como parte importante da nossa vida e a percebermos que sem eles não tem sentido, nem podemos caminhar o caminho da salvação.
A conversão leva-nos a perceber que não podemos sequer dizer que amamos a Deus, se vivemos apenas para nós ou para aqueles de quem gostamos.
A conversão leva-nos também a gostarmos de nós próprios como nós somos, assumindo sem medo os nossos defeitos e as nossas qualidades.
Deus ama-nos como nós somos e não como nós pensamos que Ele gostava que nós fossemos.
Deus ama-nos na nossa vontade de querermos fazer a Sua vontade e a Sua vontade é que «tenhamos vida e a tenhamos em abundância.»
A conversão não nos leva a sermos “santinhos”, mas a procurarmos a santidade no amor e na caridade.
A conversão tem de fazer de nós discípulos de Cristo, testemunhas da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, em todos os momentos da nossa vida, na dor e no bem-estar, na tristeza e na alegria.
A conversão leva-nos a viver a alegria da pertença a Jesus Cristo, que nos veio trazer a «alegria completa», e que não se exprime na gargalhada fácil, mas na paz, na tranquilidade, na serenidade interior, que se exprime exteriormente pela expressão da aceitação das provações, e dos bons momentos, pelo constante louvor e agradecimento por tudo quanto acontece na nossa vida, na certeza de que em tudo Deus está connosco e em tudo Ele nos conduz no caminho certo, mesmo que muitas vezes não percebamos o porquê das coisas.
A conversão é algo que não conseguimos transmitir totalmente por palavras, mas que devemos transmitir com a nossa própria vida, deixando que Deus se sirva de nós para tocar os corações, as vidas, daqueles que ainda não O encontraram, que ainda não O reconheceram.
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27 Janeiro 2009

A Comunidade Luz e Vida em Castelo Branco

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Dia de Louvor orientado pela Comunidade Luz e Vida
e presidido pelo Padre Filipe Lopes



XX Aniversário
Grupo Maria Mãe do Redentor

Castelo Branco, 31 de Janeiro de 2009


«Alegrai-vos sempre no Senhor, repito, alegrai-vos. Que a vossa mansidão seja notória a todos os homens. O Senhor está perto!»
Filipenses 4,4-5
Programa

9h30 – Acolhimento
9h45 – Oração de Louvor
10h15 – Ensinamento
11h00 – Intervalo
11h30 – Adoração ao Santíssimo
12h30 – Almoço
14h00 – Cânticos de acolhimento
15h00 - Ensinamento
16h00 – Eucaristia e envio em missão
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20 Janeiro 2009

Dia de Louvor - Ensinamento da manhã - Segunda Parte

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Para vivermos esta comunhão com Deus, que nos dá a vida em abundância, a alegria completa, precisamos de estar reconciliados com Deus, connosco próprios e com os outros.
E o passo imprescindível que temos de dar para essa reconciliação é o nosso exame de consciência e o Sacramento da Confissão.
Hoje em dia ouvimos muitos dizerem que se confessam a Deus, e que portanto prescindem da confissão com um sacerdote.
Mas, minhas irmãs, meus irmãos, o Sacramento da Confissão foi instituído por Jesus Cristo conforme podemos ler em Jo 20, 22-23
Deus quis instituir este Sacramento assim, servindo-se dos homens, porque Ele mesmo, na pessoa de Jesus Cristo, se quis encontrar com os homens, num contacto directo, através dos sinais e linguagens da condição humana, quis viver como nós e passar pelas mesmas condições que nós, excepto o pecado.
Como nos diz o Arcebispo italiano Bruno Forte, num pequeno livro sobre a Confissão:
«Como Ele saiu de si mesmo por nosso amor e veio “tocar-nos” com a sua carne, assim nós somos chamados a sair de nós mesmos por seu amor e ir com humildade e fé ter com quem pode dar-nos o perdão em seu nome mediante a palavra e o gesto.
Somente a absolvição dos pecados, que o sacerdote nos dá no Sacramento, pode comunicar-nos a certeza interior de sermos verdadeiramente perdoados e acolhidos pelo Pai que está nos Céus, porque Cristo confiou ao ministério da Igreja o poder de ligar e desligar, de excluir e de admitir na comunidade da aliança. (cf Mt 18,17)»
Com efeito, como podemos nós aferir se determinado comportamento é pecado ou não, se verdadeiramente na nossa consciência temos dúvidas?
Então, só na Confissão perante o sacerdote que nos ouve e connosco fala, o mesmo sacerdote nos pode ajudar a percebermos a dimensão total do nosso pecado, a necessidade do nosso arrependimento e nos conduzir, não só ao perdão de Deus, mas à consciência do perdão a nós mesmos e aos outros.
Muito mais ainda isto é verdade se nos lembrarmos que a Igreja nos ensina que o sacerdote na Confissão é pessoa de Cristo, ou seja, nos estamos a confessar a Cristo.
E minhas irmãs, meus irmãos, eu não sou sacerdote como muito bem sabeis, mas acreditem que os sacerdotes não querem saber dos nossos pecados, não fazem julgamento para si próprios de nós por causa dos nossos pecados, apenas agem como pessoa de Cristo para em Seu nome, nos ouvirem, aconselharem e perdoarem.
Um dia na Catequese, um jovem dizia-me que não se queria confessar por que depois o Prior ficava a saber o que ele fazia e depois quando olhasse para ele parecia que o padre o estaria a julgar.
Eu respondi-lhe o que ainda agora vos disse, que ao padre não lhe interessam os pecados de cada um e nem sequer julga as pessoas pelos pecados que confessam, mas ainda disse mais, pois disse-lhe que cá para mim, eu achava que Deus concedia aos padres a graça de se esquecerem dos pecados dos que a eles se confessam, ou seja, até se podiam lembrar dos pecados confessados, mas provavelmente já não sabiam quem é que tinha confessado este ou aquele pecado.
A verdade é que o segredo da Confissão é o segredo mais bem guardado da história da humanidade e que eu saiba nunca foi violado.
Já houve padres e até há poucos anos um Bispo em França que foram presos, mas não revelaram esse segredo.
Quando o Senhor ao fim de tanto tempo do meu afastamento dEle começou a tocar o meu coração e o da Catarina, minha mulher, passados uns tempos, talvez um ano ou dois, um sacerdote Franciscano com quem falávamos muito, perguntou-nos porque é que não nos confessávamos.
Perante as dúvidas ainda das nossas vidas, não nos tinha até ao momento ocorrido fortemente essa decisão, mas confrontados com o que ele nos disse, decidimos então confessarmo-nos a ele.
Um dia lá fomos ao Convento de Leiria para então nos confessarmos.
Há mais de 20 anos que não me confessava. Não sabia bem como o fazer e já nem sequer me lembrava da última vez que me tinha confessado.
Vinham à minha memória, ao meu coração pecados da minha infância, da minha adolescência que eu não me lembrava se já alguma vez tinha confessado ou não.
Assim decidi que devia confessar tudo o que viesse ao meu coração, de tudo o que me lembrasse da minha vida até ao momento vivida.
Não sei quanto tempo demorou a Confissão e isso também não interessa, mas ao longo dela o Senhor foi-me lembrando coisas da minha vida que me marcavam, que me envergonhavam a mim próprio, mesmo sem o conhecimento dos outros, lembro-me que as lágrimas me corriam pela cara e lembro-me sobretudo da doçura daquele sacerdote, ou seja de Jesus Cristo, que abria os braços e me acolhia no seu amor perdoando-me das minhas fraquezas.
É um momento que não esqueço na minha vida e se agora falo dele é porque é importante para aquilo que há um pouco vos dizia, sobre o facto de por vezes nos confessarmos, alcançarmos o perdão de Deus, mas não nos perdoarmos a nós próprios, ou aos outros.
Com efeito havia coisas na minha vida tão graves, que mesmo após a confissão, não só eu ainda duvidava de que Deus me perdoasse, mas também porque a vergonha de certas coisas continuava a pesar na minha vida.
É lógico que a dúvida sobre se Deus me perdoava ou não, era causada porque a minha caminhada de fé só tinha começado há pouco tempo, (o que são dois anos de caminho para 25 anos de afastamento), e porque também ainda não tinha tido aquele encontro pessoal com Deus que muda as nossas vidas.
Já o perdão a mim próprio era mais complicado e eu fui percebendo ao longo dos anos que essa falta em mim, não me deixava crescer na fé, no meu relacionamento com os outros, e interferia na minha maneira de viver e proceder.
Um dia numa Adoração ao Santíssimo pedi ao Senhor que me desse essa certeza do Seu perdão, porque precisava dela para a minha caminhada, e Ele concedeu-me essa graça de eu perceber, de eu viver a certeza de que o seu perdão é muito maior que o nosso pecado.
Então percebi que se Deus me perdoa, como posso eu não me perdoar a mim próprio.
Se Deus me purifica, como posso eu não me deixar purificar.
Se Deus me liberta do meu pecado, como posso eu ficar agarrado à lembrança do pecado.
Perante essa certeza decidi confessar novamente esses pecados que ainda me atormentavam, não porque não acreditasse que Deus já mos tinha perdoado, mas para que confrontando-me novamente com eles na confissão, me libertasse deles definitivamente.
E claro, a graça aconteceu, porque a Confissão é também um Sacramento de Cura e Libertação e a partir daí a minha vida mudou e eu pude viver a minha vida com Deus, comigo próprio e com os outros livremente e sem as cadeias da vergonha, da mágoa ou do ressentimento.
Mas para que a Confissão seja recebida em toda a sua plenitude, com toda a graça que o Sacramento derrama nas nossas vidas, é preciso que seja bem feita.
A Confissão não pode ser apenas um relatório de pecados, um desfiar de fraquezas, um contar de problemas.
É preciso que assumamos as nossas faltas, (não foi por causa dos outros como tantas vezes nos queremos fazer crer), que nos confrontemos com as nossas fraquezas, que tenhamos a consciência do arrependimento e o propósito de emenda, ou seja o compromisso de não voltar a cometer esses pecados, mesmo que infelizmente venhamos a cair neles novamente.
Abrirmos os nossos corações ao perdão de Deus e percebermos que se Ele nos perdoa não podemos nós continuar agarrados à lembrança desse pecados.
Assim, ao recebermos a absolvição de Deus, também o nosso coração se abre à reconciliação connosco próprios e com os outros, e assim somos libertos do peso da vergonha, da lembrança que nos magoa, e em paz connosco, ficamos também em paz com os outros e vivemos mais um pouco da abundância de vida e da alegria que Jesus Cristo nos veio trazer.
Também por essa Confissão alcançamos a graça da força necessária para pedirmos perdão àqueles que nós magoámos e perdoarmos aqueles que nos magoaram.
Assim e ainda, aqueles problemas de que falámos há pouco, de não ser fácil enfrentar aqueles contra quem pecámos, ou aqueles que contra nós pecaram, são curados das nossas vidas e podemos viver em paz com eles e por isso mesmo também, os problemas de saúde que nos atormentavam como vimos anteriormente, acabam por desaparecer das nossas vidas e mais uma vez, repito, passamos a viver a vida verdadeira que Jesus Cristo nos trouxe e que é a vida em abundância na alegria de Deus.
Hoje, minhas irmãs e meus irmãos, temos de tomar, de viver este compromisso sério de nos aproximarmos da Confissão na primeira ocasião que tivermos.
Mas tomá-lo conscientemente e não debaixo de uma emoção do momento.
Percebermos que a Confissão a fazer tem de ser tão consciente que não seja apenas relatar pecados, mas assumi-los como culpa nossa, enfrentá-los como fraquezas nossas, e sobretudo acreditarmos firmemente que o amor e o perdão de Deus são muito maiores que os nossos pecados.
Porque assim, acreditando no perdão de Deus, que nos purifica pela Confissão, não podemos nós deixar de nos perdoarmos a nós e aos outros, porque se assim não fizermos estaremos como que a manchar o perdão que Deus nos concede.
E não tenhamos medo ou vergonha de confessarmos pecados já confessados, se por alguma razão eles ainda nos envergonham e magoam, dizendo ao sacerdote isso mesmo, para que ele nos aconselhe e de coração aberto alcancemos todas as graças que o Sacramento da Confissão nos concede, desde o perdão de Deus, até à libertação e à cura dos problemas psíquicos e até físicos.
Peço-vos agora que fecheis os olhos e baixeis a cabeça, numa serenidade total que é garantida pela presença de Jesus Cristo no meio dos pecadores que somos nós.
Peço-vos ainda que em silêncio escuteis a oração que vou fazer pausadamente e que à medida que a fores escutando a rezeis com o coração, sem palavras saídas da boca, mas tomando-a como vossa e assumindo verdadeiramente o compromisso que nela está.

Oração
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Senhor Jesus Cristo, que estás no meio de nós, porque somos pecadores, vem ao meu encontro e toca o meu coração e a minha mente.
Mostra-me Senhor Jesus, tudo o que na minha vida não é do teu agrado e tudo o que me impede de viver a vida em abundância e alegria que Tu mesmo nos vieste trazer.
Concede-me a graça de acreditar firmemente que o teu perdão é infinitamente maior que o meu pecado, para que acolhendo o teu perdão na minha vida, também eu me perdoe a mim próprio das minhas fraquezas e perdoe as minhas irmãs e os meus irmãos que me ofenderam e peça perdão aos que eu ofendi.
Peço-te também, Senhor Jesus, que pela graça da Confissão me libertes de todo o pecado, da opressão do pecado, de todas as doenças psíquicas e físicas que o pecado trouxe à minha vida.
Agora Senhor Jesus, que estás aqui no meio de nós, eu comprometo-me de todo o coração, com toda a minha vida a, no mais curto espaço de tempo, procurar o Sacramento da Confissão e de coração aberto, reconhecendo-me pecador e acreditando no teu infinito perdão, confessar-me de todos os meus pecados, presentes e mesmo os passados que ainda não consegui perdoar a mim próprio ou aos outros.
Na tua misericórdia firmemente acredito e desde já agradeço-Te pela libertação que vais operar na minha vida, e pela paz, pela alegria e pela vida em abundância que já neste momento me estás a dar.
Louvado sejas Senhor, pelo teu infinito amor.
Amen.
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12 Janeiro 2009

Dia de Louvor - Ensinamento da manhã - Primeira parte

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Bom dia.
Alguns de vós já me conhecem, mas certamente outros não, por isso apresento-me.
Chamo-me Joaquim, tenho 59 anos, sou casado, pai de 4 filhos e avô de dois netos.
Pertenço à Comunidade Luz e Vida e vivo na Diocese de Leiria-Fátima.
Para além de outras características que tenho que me fazem igual a todos vós, tenho uma especial em que somos todos iguais.
Sou pecador!
Julgo que aqui não há ninguém que não seja pecador, ou há?
Ser pecador é uma constante da nossa vida humana, da fraqueza das nossas vidas, mas tem algo que acaba por ser muito bom.
Claro que o muito bom não é o pecado, mas o facto de sermos pecadores. Deus condena o pecado, mas não condena os pecadores.
E é isso que é muito bom, porque sabemos que Jesus Cristo se fez Homem como nós, para estar no meio dos pecadores, para nos libertar do pecado, e que é Ele mesmo que o diz, que veio para os pecadores.
Por isso, e em primeiro lugar tomemos a consciência firme de que Ele, Jesus Cristo, está aqui no meio de nós, e em nós, porque está sempre no meio dos pecadores, porque Ele veio para os pecadores.
E se Ele está no meio de nós, nada devemos temer, mas apenas abrirmos os nossos corações e deixarmos que Ele nos fale, nos toque, nos mostre o caminho que devemos caminhar para nos encontrarmos verdadeiramente com Ele, num encontro pessoal que mude as nossas vidas, que nos liberte e nos dê já aqui no mundo a paz, a alegria e a felicidade prometidas no Céu.
Quando o Padre Filipe me pediu para eu fazer este ensinamento na manhã de hoje, o meu coração bateu mais forte.
Era algo que eu desejava, mas ao ser posto perante a realidade de ter que fazer este ensinamento, a minha confiança tremeu, e senti um enorme peso sobre mim.
E isso aconteceu porque me coloquei perante as minhas capacidades, perante aquilo que eu julgava ou julgo saber, quando a minha atitude deveria ter sido de agradecer ao Senhor por se querer servir de mim e sobretudo colocar-me nas Suas mãos, para que Ele fizesse em mim aquilo que eu sozinho nunca poderia fazer.
O Padre Filipe tinha-me pedido para eu rezar e pedir a Deus a palavra, a mensagem sobre a qual hoje deveríamos meditar.
No meu quarto, com a Bíblia entrei em oração pedindo ao Senhor que me ajudasse na minha fraqueza e me mostrasse o que queria de mim, o que nos queria dizer hoje.
Ao fim de um tempo de oração abri a Bíblia e confesso que fiquei desapontado, pois o que me era mostrado não era nenhuma passagem bíblica, mas sim a introdução ao Evangelho de São Marcos.
Resisti à vontade que tive de fechar a Bíblia para a abrir novamente e li com atenção o que estava escrito naquela página.
Havia uma gravura de Cristo crucificado e sobre a gravura estava escrito o seguinte:
«Marcos preocupa-se com fazer esta grande revelação aos pagãos: Jesus de Nazaré, o crucificado, é o Filho de Deus! E quem o confessa é nada menos que o centurião romano de guarda à cruz, quando vê Jesus, crucificado entre dois ladrões, dar um grande grito na sua morte.» Mc 15,33-39
Jesus Cristo serve-se de quem menos se espera para revelar aos outros a verdade sobre Si mesmo: Ele é o Filho de Deus!
Fiquei ali a pensar naquela verdade, que tantas vezes é demonstrada ao longo dos quatro Evangelhos.
Foram tantos aqueles pecadores que tocados por Jesus acabaram por serem as testemunhas de que Ele era e é o Filho de Deus.
Foi Zaqueu, foi o centurião que tinha o servo doente, foi a mulher adultera, foi Levi o cobrador de impostos, foi Jairo o chefe da Sinagoga, foi a Samaritana, foi o ladrão que com Ele foi crucificado, foram os Apóstolos que tirando João abandonaram Jesus na Cruz, foi Paulo que perseguia os cristãos, foi até Pedro, o primeiro Papa que negou três vezes Jesus.
E com este facto que aqui vos conto há logo uma lição a tirar, que tirei também para mim.
Muitas vezes abrimos a Bíblia e como já conhecemos a Palavra que nos surge, ou porque não é a Palavra que mais nos agrada, (tantas vezes porque é do Antigo Testamento), voltamos a fechá-la para a abrirmos novamente.
E como estamos errados, porque a Palavra de Deus é viva, e aquilo que Ela me disse ao coração uma vez, pode ser bem diferente dessa vez, e é com certeza aquilo que eu necessito nesse momento.
Por isso não procuremos aquilo que nos agrada, mas meditemos naquilo que o Senhor nos quer dizer com a Sua Palavra, e mesmo que Ela se repita várias vezes pensemos verdadeiramente se já entendemos todo o seu conteúdo, toda a sua mensagem para nós.
Deus serve-se então dos pecadores para se revelar a uns e a outros.
Mas para que eu pecador, para que cada um de nós pecadores possa ser testemunha de Jesus Cristo é preciso que queira viver fora do pecado, é preciso que mostre na sua vida, nas suas atitudes, nos seu gestos, na sua maneira de proceder que o seu encontro pessoal com Jesus Cristo mudou a sua vida.
Precisa de se libertar, de ser liberto da escravidão do pecado que tantas vezes toma conta de nós e condiciona as nossas vidas.
E então veio ao meu coração outra passagem bíblica, aquela relatada em Lucas 4, 16-21.
Tantas vezes que entendemos esta passagem exactamente como ali está escrito, ou seja, entendemos que esta passagem revela os milagres físicos que Jesus fez e vêm relatados nos Evangelhos.
E revela com certeza esses milagres, mas revela também que Jesus Cristo veio para os pobres em espírito, ou seja para aqueles que não têm Deus, ou que conhecendo-O não O vivem, revela que veio para libertar aqueles que estão presos ao pecado, revela que veio dar a luz aqueles que andam nas trevas, porque ainda não O conhecem verdadeiramente, revela que veio dar liberdade aos que estão presos aos vícios que os oprimem.

Neste momento dei um breve testemunho da minha vida, contando que apesar de ter nascido e crescido numa família profundamente cristã e católica, tendo recebido dos meus pais o testemunho da Fé, bem como dos colégios católicos que frequentei, por volta dos 17/18 anos comecei a afastar-me da prática religiosa, da Igreja, da Fé, de Deus, tendo vivido cerca de 25 anos totalmente afastado, sendo que, os últimos 10 anos dessa vida sem Deus foram preenchidos com uma vida dissoluta, de noitadas e tudo o que isso envolve, e como, apesar de reconhecer de vez em quando que devia mudar de vida, pois que a que levava me conduzia ao abismo, não era capaz de sair dessa vida de pecado viciante.
Só quando por graça de Deus, abri novamente o meu coração e a minha vida à Fé, à Sua presença na minha vida, à comunhão em Igreja, me foram dadas forças para me afastar dessa vida.

Não é verdade, não reparamos nós que na maioria dos milagres que Jesus faz, em primeiro lugar perdoa os pecados e só depois acontece a cura física?
Vivemos hoje num mundo em que a maior parte das doenças de que sofrem as pessoas são doenças psicossomáticas, isto é, são doenças que têm a ver com a mente, com o estado de espírito das pessoas.
E são tantas coisas que fazemos na vida, que marcam as nossas vidas e se tornam tantas vezes razão de mau estar psicológico e físico.
São tantas coisas que fazemos na vida ou que nos fazem e que nos marcam de modo tão forte que vão condicionando o nosso dia a dia, às vezes até sem nos apercebermos disso mesmo.
São as dores de cabeça, de estômago, as insónias, as angústias, as tristezas permanentes, as depressões, a dificuldade de relacionamento com os outros, tantas vezes até com os nossos familiares mais chegados.
A verdade é que a maioria esmagadora dessas situações se deve a factos passados nas nossas vidas, a pecados cometidos ou que cometeram contra nós, e que ainda não foram resolvidas, ainda não foram perdoados, muitas vezes por nós próprios.
Vejamos por exemplo uma pessoa que cometeu um pecado de adultério, homem ou mulher, tanto faz, e pode ter sido apenas uma vez.
Pode estar casado há muito tempo mas se realmente não se perdoou a si próprio, para além do perdão de Deus, obviamente, a sua vida estará sempre marcada por esse episódio, por esse pecado, e muitas vezes a presença da sua mulher ou do seu marido, em vez de despertar amor pode despertar um sentimento de culpa que depois se reflecte no estado de espírito da pessoa e condiciona a sua paz, a sua alegria de viver, e por arrastamento, por exemplo, um mau dormir, dores de cabeça ou outras manifestações físicas.
A pessoa não está bem consigo própria e por isso não pode estar bem com a vida.
Outro exemplo poderá ser uma violência que a pessoa sofreu no passado, violência física, verbal ou até sexual.
A pessoa já se pode ter reconciliado com Deus, pela Confissão, mas ainda não conseguiu perdoar ao outro, ou até mesmo a si própria.
Há pessoas que sofrem estas violências e consideram que têm alguma parte na culpa, consideram que de alguma forma também são culpadas.
Enquanto não acontecer a paz sobre esse assunto, sobre esse pecado em todas as suas dimensões, a pessoa não poderá viver a vida em toda a sua plenitude, não poderá viver a alegria da liberdade dos filhos de Deus.
Atentemos ainda em outro exemplo, como aquele de uma mulher que pratica o aborto.
A pessoa pode confessar-se, estar arrependida, ter tomado um compromisso sério de não voltar a cometer tal pecado, mas se não se perdoou a si própria, isto é, se não se deixou alcançar pela plenitude do amor, do perdão de Deus, essa pessoa viverá continuamente atormentada por aquele facto, por aquele pecado na sua vida, e não terá descanso, não terá paz, não terá felicidade. Isso trazer-lhe-á forçosamente muitas vezes, mau estar físico que se poderá manifestar de muitos formas, como depressões, tristezas inexplicáveis, insónias, e tantas outras manifestações que não deixam que a sua vida seja verdadeiramente uma vida livre, uma vida em abundância.
Compreendemos então agora melhor a passagem do Evangelho de São Lucas que há um pouco lemos, pois percebemos agora que Jesus Cristo nos veio resgatar do cativeiro do pecado, nos veio dar a luz, a vista perdida nas trevas do pecado, nos veio libertar das opressões do pecado.
Compreendemos agora melhor a passagem do Evangelho de São João, em que Jesus nos diz:
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.» Jo 10,10
E também a passagem do mesmo Evangelho:
«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa.» Jo 15,11
Podemos ter a vida pelo facto de termos sido gerados pelos nossos pais e de termos nascido, mas podemos não a ter em abundância, isto é, na sua plenitude, que só é alcançada na comunhão com Deus.
Podemos ter momentos de alegria, mas podemos não viver a alegria que nos vem da comunhão com Deus e nos ajuda a ultrapassar as dificuldades e as provações.
Para vivermos esta comunhão com Deus, que nos dá a vida em abundância, a alegria completa, precisamos de estar reconciliados com Deus, connosco próprios e com os outros.
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(continua)