26 julho 2007

Oração em Línguas 8


"Se chamamos a Deus o Mistério Inefável, queremos dizer com isso que nenhum conteúdo da nossa inteligência pode abarcá-Lo e expressá-Lo.
Isto vale também para as palavras “Deus”, “Pai”, “Santo”, etc. A elas associamos determinadas ideias e conteúdos que foram tomados da nossa experiência humana.
Mas se o próprio Deus, o “Pai”, é inexperimentável, como diz a Bíblia desde o primeiro ao último livro, então o Seu Mistério só pode expressar-se em palavras que não foram tiradas da nossa experiência humana. Além disso, podemos proteger-nos muito bem contra Deus e falar sobre Ele na nossa língua-mãe e com muitas noções estudadas da nossa inteligência.
Pelo contrário, na oração em línguas falamos a Deus (1 Cor 14,2)
Por isso nela também não comunicamos alguma coisa aos outros homens, mas edificamo-nos a nós mesmos, apresentando-nos a nós mesmos diante de Deus (1 Cor 14,4).
Por esta razão, Paulo adverte que a oração em línguas passe para segundo plano na assembleia litúrgica.
Quando ninguém a pode “interpretar”, também ninguém deve falar assim perante a comunidade. Deve “fazê-la para si mesmo e perante Deus” (1 Cor 14,28). Por isso esta forma de oração permanece privada na medida em que é, em primeiro lugar, um enriquecimento da oração “privada”.
Mas o próprio fenómeno em si é uma profunda “desprivatização” perante Deus, pois nele eu não rezo “separado” de Deus a um “Ser Superior” anterior e por cima da criação, mas Deus, o Espírito Santo reza em mim através de Cristo a Deus, o Pai incompreensível e inexperimentável. Outra coisa é, sem dúvida, o “canto no Espírito Santo” (Ef 5,19 seg.; Cl 3,16 seg.) em comum: Alguém entoa uma melodia, todos se reúnem à sua volta, cantam-na em várias vozes, “como o Espírito Santo os inspira”, e então rezam em línguas.
Quando este Dom não é concedido, pode então juntar-se a estas melodias orações na língua materna (Aleluia, Jesus é o Senhor, etc).
Este “canto no Espírito Santo” na reunião de oração dá muitas vezes uma profundidade incalculável à adoração.
Não é por acaso que isso se desenvolve frequentemente na celebração da Eucaristia, após a narração da Instituição, a seguir a exclamação: “Mistério de Fé”.
A interpretação de uma oração em línguas numa assembleia é, segundo S. Paulo, um Dom especial do Espírito Santo (1 Cor 12,10). Quem interpreta uma oração em línguas procura acompanhá-la e, através de uma intuição espiritual, dar-lhe um conteúdo.
É evidente que aqui não se pode tratar de uma “tradução”, pois o que ora não associa à sua linguagem conteúdo nenhum. O Dom da interpretação e da exegese é sobretudo dado para que também os outros tenham um proveito da oração em línguas (1 Cor 14,17), permaneça a dimensão social da presença de Deus e também a inteligência não fique sem lucro (1 Cor 14,14). A interpretação é por isso mais um complemento que uma tradução!

“Experiência Fundamental do Cristianismo” – Heribert Mühlen

(A identificação do autor está em "Oração em Línguas 6")

20 julho 2007

Oração em Línguas 7


"Na nossa oração tradicional conhecemos graus que antecedem isso: No coral gregoriano há séries de tons longos, nos quais é cantada só a vogal “a” (como no final do Aleluia). A vogal “a” não tem “sentido” em si mesma, não contém uma comunicação, uma informação. Ela é um tal “cantar-se a si” diante de Deus, simplesmente a ponte linguística para Deus, e provém das camadas profundas da minha pessoa que não se entende pela pura razão.
Um fenômeno semelhante é sobretudo na Igreja Oriental a oração de Jesus. Na repetição muitas vezes de horas seguidas o orante diz a jaculatória: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Quando alguma vez se ouviu esta frase, conhece-se o conteúdo, mas nesta forma de oração não se trata em primeiro lugar do conteúdo, mas do processo de eu falar com Jesus e com Deus e assim experimentar em mim a Sua presença. Uma tal repetição constante é “sem sentido” para a “inteligência”.
O mesmo acontece na oração do Rosário. Durante a oração não se acompanha com o entendimento o conteúdo de cada palavra ou das frases pronunciadas. Não tem “sentido” pronunciar a mesma oração 50 vezes.
Na oração em línguas acrescenta-se a isso só uma coisa. As vogais e consoantes pronunciadas pertencem a uma língua que não conheço, que deste modo ainda ninguém pronunciou. Nela eu expresso-me diante de Deus, entrego-me a mim mesmo, também a minha língua, totalmente a Ele.
A doação de si mesmo a Deus na oração em línguas pode expressar agradecimento (1Cor 14,16 seg.), intercessão (Rm 8,27; Ef 6,18), proclamação das maravilhas de Deus (Act 2,11; 10, 46). Atinge a sua dimensão mais profunda na adoração de Deus por Ele mesmo.
Quando louvamos e glorificamos a Deus por causa da Sua Criação, podemos enumerar as muitas criaturas que Ele criou.
Mas se O louvamos e O glorificamos porque Ele é o Mistério imenso, incompreensível, inefável Cf 14,2), faltam-nos as palavras.
Nós só podemos exclamar “Nós Te louvamos, te bendizemos, Te adoramos” e então devíamos repetir continuamente estas jaculatórias ou começar a cantar as “propriedades” de Deus (Só Tu és Santo, só Tu o Senhor, só Tu o Altíssimo, etc).
Quando se trata de Deus, porque Ele é Deus, não sabemos realmente o que e como rezar. Então só podemos abandonar-nos à presença de Deus em nós: Ele mesmo vem em nossa ajuda “com gemidos inenarráveis” (Rm 8,26).
A palavra grega que neste lugar é traduzida por “gemido”, no contexto do Novo Tetstamento é um termo técnico para uma oração que não procede da inteligência mas do Espírito Santo.
Esta palavra encontra-se também em Mc 7,34 e 8,12. Por isso Marcos era provavelmente da opinião de que Jesus também tinha rezado desta forma."


“Experiência Fundamental do Cristianismo” – Heribert Mühlen


(A identificação do autor está em "Oração em Línguas 6").

18 julho 2007

Oração em Línguas 6


O Dom de Línguas é para muitos o primeiro passo para uma desprivatização perante Deus: “Quem reza em línguas, não fala aos homens mas a Deus; ninguém o entende: No Espírito Santo ele diz coisas misteriosas” (1Cor 14,2).
Deus é não só incompreensível, mas também inefável. Isto é expressamente doutrina e dogma da Igreja.
Não podemos abarcar e expressar os mistérios de Deus coma nossa linguagem humana comum. A oração em línguas é porém um expressar daquilo que permanece inefável por toda a eternidade!
Devemos por isso permitir a Deus que penetre na nossa mais profunda capacidade de falar, que expresse em nós o Seu Mistério.
Na oração em línguas abandonamo-nos a Deus até ao mais profundo do nosso ser humano.
A faculdade de falar é na verdade a sua expressão mais profunda (um animal jamais aprenderá uma língua humana).
Na palavra “eu” estou eu mesmo totalmente presente, com corpo e alma, inteligência, vontade e sentimento. Ninguém pode dizer “eu” em meu lugar, ninguém pode dizer “tu” em meu lugar.
A oração em línguas neste sentido é um dizer “Tu” a Deus, proveniente das profundidades da pessoa, sem que o que reza entenda o “sentido” (cf. 1 Cor 14,11).
Porque este expressar do inefável se tornou quase desconhecido, não se pode à distância fazer uma idéia dele, quando a gente ainda não o ouviu ou experimentou em si.
Esta oração está por isso exposta a muitos mal-entendidos. Ela não é – como dão a entender as traduções bíblicas – um falar “arrebatado” ou “extático”, mas um falar muito normal, num tom normal.
Paulo supõe que quem reza assim pode começar e terminar quando ele quer (1 Cor 14,27 “um depois do outro”).
Geralmente a oração em línguas ouve-se como uma emissão de noticias na rádio numa língua totalmente desconhecida para o ouvinte.
Trata-se de uma série de vogais e consoantes com uma melodia e ritmo linguístico determinado, com a única diferença de que esta linguagem é “sem sentido” para a inteligência e além disso, muito pessoal, dado que procede duma profunda atitude de adoração.

“Experiência Fundamental do Cristianismo” – Heribert Mühlen
WIKIPÉDIA Heribert Mühlen Heribert Mühlen (April 27 1927- May 25 2006) was a German Roman-Catholic theologian.
He was born in Mönchengladbach, studied in Bonn, Freiburg, Rome, Innsbruck, Münster und Munich, and was priest since 1955. Since 1962 Mühlen taught at the Divinity Faculty of the University Paderborn, where he later (1964-1997) worked as Ordinarius für Dogmatik und Dogmengeschichte (Professor of Dogmatics and Dogmatical History).
During the Second Vatican Council, Pope Paul VI appointed Mühlen as one of the theological experts (1964). His theological work is concentrated mostly on pneumatology, ecclesiology and pastoral theology. Mühlen also helped to introduce protestant charismatic ideas into the Roman-Catholic church.

16 julho 2007

Oração em Línguas 5


"Portanto, não há por que assombrar-se ao ver como uma prática que de nenhum modo é devida a outra tradição distinta da nossa, é revivida.
Uma vez adquirida tal liberdade de expressão dos sentimentos religiosos em si mesmos, pode-se e deve-se sentir verdadeira necessidade de compartilhá-los com outros homens; e achar-se-á normal e benfazejo que já se possa louvar, adorar, glorificar e amar a Deus segundo todos os modos de expressão dos quais dispomos – segundo todas as cordas da harpa - , expressão na qual o ‘falar em línguas’ entra como parte integrante para quem entendeu seu sentido.
Falar em línguas, concebido dessa forma, parece-me um enriquecimento espiritual; por isso, não duvidei em considera-lo como um dos frutos da graça.»


"Um Novo Pentecostes" - Cardeal Leo J. Suenens

14 julho 2007

Oração em Línguas 4


"Reconheçamos que nos encontramos, em geral, tremendamente embaraçados quando se trata de exteriorizar os nossos sentimentos religiosos profundos, tanto a Deus como aos homens. Inclusive os próprios sacerdotes e religiosos sabem muito bem quanto lhes custa “entregar-se” em profundidade espiritual a seus irmãos com quem vivem lado a lado, mas superficialmente. Estamos petrificados por formalismos e ritualismos; adquirimos pouco a pouco uma expressão comunitária litúrgica, depois de muitos séculos de passividade.
Ainda não encontramos o calor conveniente para uma festa, para uma celebração fraternal; o degelo é conseguido pouco a pouco.
Ainda em nossos dias, o Papa tem de nos pôr em guarda diante da rotina da oração e diante do abuso de fórmulas feitas.
Descobrem-se neste momento alguns novos métodos em matéria de expressão corporal e de intercomunicação (...)
Os jovens marcham com toda a naturalidade nessa direcção.
O dom de ‘falar em línguas’, longe de ser considerado algo arcaico, poderia converter-se em elemento de renovação."
"Um Novo Pentecostes" - Cardeal Leo J. Suenens

13 julho 2007

Oração em Línguas 3


“Karl Barth descreveu a glossolalia, (dom de falar em línguas), como um esforço para expressar o inexprimível.
São Paulo dirá por sua vez que o próprio Espírito Santo intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8,26); e Ele se une a tal oração misteriosa, não articulada, deixando ao próprio Deus o cuidado de glorifica-lo e lhe dar graças por um amor que ultrapassa todo o conhecimento (Ef 3,19).
Em linguagem psicológica dir-se-ia: eis aqui a voz do subconsciente que se eleva para Deus. Uma expressão, pois, do subconsciente, como também o são os sonhos. Tudo isso tem lugar nas profundezas do nosso ser: de onde procede um efeito de profunda cura reconhecido de vez em quando, cura de traumatismos o cultos que impedem o desenvolvimento da vida interior."


"Um Novo Pentecostes" - Cardeal Leo J. Suenens

12 julho 2007

Oração em Línguas 2


“Se São Paulo o denomina e julga o menor dos dons – ainda que ele mesmo o exercitasse – não é, sem dúvida, porque venha a ser como um caminho de acesso para outros dons, como uma porta que se pode ultrapassar curvando-se um pouco. O carisma de falar em línguas é, pois, um acto de humildade e de espírito infantil que desemboca no Reino de Deus. «Se vos tornardes como crianças…» . Esta palavra de Jesus de significado bastante profundo é bem conhecida.
Esse dom tão pouco cerebral abre uma brecha no nosso sistema de reserva e de defesa, e ajuda a franquear uma espécie de espaço entendido como libertação e abandono de si ao Senhor; esse ceder entrega o corpo e a alma à obra do Espírito, quando nos prestamos a isso.
Por não ser mais que uma espécie de pontapé inicial, não deixa de ser menos precioso porque traduz, a seu modo, a liberdade interior dos filhos de Deus.”


"Um Novo Pentecostes" - Cardeal Leo Joseph Suenens

10 julho 2007

Oração em Línguas 1

Do livro de Jean Lafrance - «Quando orardes dizei: "Pai".»


"É quando já não tens palavras para rezar que é bom deixar rezar o Espírito no teu coração, com gemidos inefáveis. Tais gemidos são profundos demais, para se exprimirem em palavras. No mais íntimo do teu coração existe uma melodia secreta, um canto misterioso que quer libertar-se e que não pode, porque geme em dores de parto. Quando o ouvires, ficarás estupefacto coma sua beleza. Eis porque, na oração, deves ser levado pelo desejo de cantar o que quer que seja. Se cantas alguma coisa boa, isso será ainda da tua própria lavra. Ao passo que se puderes deixares-te levar – é isto o espírito de infância – deixarás que se expanda o que de mais profundo há em ti e que desconheces. Deus colocou em ti o murmúrio do Seu Espírito, mas tu abafa-lo com as tuas ideias, os teus cálculos e os teus programas. Deus pede-te que não controles a tua oração, mas que deixes brotar do teu coração esse canto novo do qual ninguém conhece a partitura, a não ser aquele que a recebe e no momento que a canta. Descobrirás assim o esplendor que sai de ti mesmo, porque foi o próprio Deus que o depôs lá. Não abafes a espontaneidade do Espírito que dorme em ti. No Céu, isto será perfeito, pois descobrirás na luz de Deus como és um servo inútil. E ao mesmo tempo, descobrirás a tua verdadeira importância que é seres um adorador em espírito e em verdade, tal como o Pai os procura (Jo 4,23).»