20 julho 2007

Oração em Línguas 7


"Na nossa oração tradicional conhecemos graus que antecedem isso: No coral gregoriano há séries de tons longos, nos quais é cantada só a vogal “a” (como no final do Aleluia). A vogal “a” não tem “sentido” em si mesma, não contém uma comunicação, uma informação. Ela é um tal “cantar-se a si” diante de Deus, simplesmente a ponte linguística para Deus, e provém das camadas profundas da minha pessoa que não se entende pela pura razão.
Um fenômeno semelhante é sobretudo na Igreja Oriental a oração de Jesus. Na repetição muitas vezes de horas seguidas o orante diz a jaculatória: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Quando alguma vez se ouviu esta frase, conhece-se o conteúdo, mas nesta forma de oração não se trata em primeiro lugar do conteúdo, mas do processo de eu falar com Jesus e com Deus e assim experimentar em mim a Sua presença. Uma tal repetição constante é “sem sentido” para a “inteligência”.
O mesmo acontece na oração do Rosário. Durante a oração não se acompanha com o entendimento o conteúdo de cada palavra ou das frases pronunciadas. Não tem “sentido” pronunciar a mesma oração 50 vezes.
Na oração em línguas acrescenta-se a isso só uma coisa. As vogais e consoantes pronunciadas pertencem a uma língua que não conheço, que deste modo ainda ninguém pronunciou. Nela eu expresso-me diante de Deus, entrego-me a mim mesmo, também a minha língua, totalmente a Ele.
A doação de si mesmo a Deus na oração em línguas pode expressar agradecimento (1Cor 14,16 seg.), intercessão (Rm 8,27; Ef 6,18), proclamação das maravilhas de Deus (Act 2,11; 10, 46). Atinge a sua dimensão mais profunda na adoração de Deus por Ele mesmo.
Quando louvamos e glorificamos a Deus por causa da Sua Criação, podemos enumerar as muitas criaturas que Ele criou.
Mas se O louvamos e O glorificamos porque Ele é o Mistério imenso, incompreensível, inefável Cf 14,2), faltam-nos as palavras.
Nós só podemos exclamar “Nós Te louvamos, te bendizemos, Te adoramos” e então devíamos repetir continuamente estas jaculatórias ou começar a cantar as “propriedades” de Deus (Só Tu és Santo, só Tu o Senhor, só Tu o Altíssimo, etc).
Quando se trata de Deus, porque Ele é Deus, não sabemos realmente o que e como rezar. Então só podemos abandonar-nos à presença de Deus em nós: Ele mesmo vem em nossa ajuda “com gemidos inenarráveis” (Rm 8,26).
A palavra grega que neste lugar é traduzida por “gemido”, no contexto do Novo Tetstamento é um termo técnico para uma oração que não procede da inteligência mas do Espírito Santo.
Esta palavra encontra-se também em Mc 7,34 e 8,12. Por isso Marcos era provavelmente da opinião de que Jesus também tinha rezado desta forma."


“Experiência Fundamental do Cristianismo” – Heribert Mühlen


(A identificação do autor está em "Oração em Línguas 6").

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