31 dezembro 2008

DIA DE LOUVOR


DIA DE LOUVOR

Anfiteatro Paulo VI – Fátima ..... Domingo 11 de Janeiro de 2009

Tema: O Senhor liberta aqueles que dEle se aproximam, para que os seus corações se encham da verdadeira alegria que dá nova vida aos homens.
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Os ensinamentos do Dia de Louvor serão orientado pelos Pe Marcelo Cavalcante de Moraes e pelo irmão Joaquim Mexia Alves, membros da Comunidade Luz e Vida e também ao serviço da direcção nacional do RCC e do Secretariado Diocesano do RCC.

A Adoração ao Santíssimo com oração de Libertação será orientada pelo Pe Filipe Lopes.

Inscrições
As inscrições são feitas por telefone, 236931251.
Oferta
Cada crachá de entrada 5€ ( não se entregam crachás no secretariado )

Horário para telefonar
Todos os dias feriais: de manhã das 10h às 12h e à tarde das 15h às17h e das 19h às 20h

Limite de Inscrições
Só se aceitam inscrições até a sala estar cheia. Nessa situação, como tem acontecido, não aceitamos mais inscrições, mesmo dentro do prazo.
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Programa

08h30 - Abertura das portas e acolhimento
09h00 - Louvor da manhã
10h00 - Primeiro ensinamento ( Joaquim )
10h45 - Intervalo
11h15 - Adoração ao Santíssimo com oração de Libertação ( Pe Filipe )
12h45 - Almoço
14h30 - Louvor
15h30 - Segundo ensinamento ( Pe Marcelo )
16h15 - Intervalo
16h45 - Celebração da Missa com oração de cura
18h00 - Termo do encontro

O Coordenador

Pe Filipe da Fonseca Lopes

26 novembro 2008

A Igreja Católica 2


Eu amo a Igreja profundamente, no e do mais intimo do meu ser, e sei, (e aqui sem qualquer dúvida), que se não fosse a Igreja, a minha conversão, (que nunca está acabada), nem sequer tinha começado.

Eu amo a Igreja profundamente e amo-A como Ela é, constituída por homens e mulheres pecadores, iguais a mim.
E porque assim Ela é constituída é que eu a amo total e absolutamente, porque Ela se aproxima de mim, pecador, fraco, e assim me sinto irmanado com os outros pecadores.

E porque Ela é constituída por pecadores, é que é “local” privilegiado de encontro com Jesus Cristo, porque o Senhor da misericórdia está sempre no meio dos pecadores.

Revejo a cena em que Jesus Cristo funda a Sua Igreja em Pedro e nos Apóstolos e vem ao meu coração a profunda certeza, alimentada pela Fé, de que esta é a Igreja de Jesus Cristo.

Na Sua omnisciência, Jesus Cristo sabia bem e em cada momento, tudo o que a Igreja ia fazer, ia passar e no entanto colocou-lhe o Seu selo, o selo do Espírito Santo.

Sabia que Ela havia de passar por fases de crescimento, de envelhecimento de rejuvenescimento, mas que seria sempre santa e imaculada, porque o pecado que toca os homens, não poderia tocar a Igreja.

Jesus Cristo, enquanto Homem, viveu 30 anos de crescimento, de preparação, de oração, para finalmente cumprir na totalidade a vontade do Pai, entregando-Se por nós e alcançando-nos a vida eterna pela Sua vitória sobre a morte.

30 anos de Jesus Cristo como Homem, a quantos milénios corresponderá na vida da Igreja?

Vemos pela sua história como a Igreja se renovou, se construiu, se corrigiu ao longo destes 2000 anos.

Aquilo que eram as criticas no meu tempo de infância, quando as missas eram em latim, já não têm sentido agora, que as celebramos em português.
A Bíblia, a Palavra de Deus, durante tantos anos afastada da vida dos cristãos é hoje anunciada, é hoje aconselhada, é hoje obrigatória na vida do dia a dia do cristão.

Aquele que era o Papa da transição, segundo dizem os “especialistas”, foi o escolhido pelo Espírito Santo, para encetar a mudança, para renovar a Igreja, para dar ao povo cristão a possibilidade de poder entender na sua simplicidade coisas tão importantes como as orações da celebração maior, a Eucaristia.

Costumamos dizer que o tempo de Deus não é o nosso tempo, no sentido “quantificado” logicamente.
Então, sendo a Igreja de Jesus Cristo o Seu próprio Corpo, porque há-de Ela andar segundo a vontade dos homens e não a vontade de Deus?
Se o Espírito Santo interveio na Igreja tantas vezes, vencendo a vontade dos homens, porque não acreditamos agora que Ele continua a intervir e que o Seu tempo, não é o nosso tempo?

Mas o Espírito Santo intervém servindo-se dos homens.
Ora se os homens não estão em Igreja, na Igreja, como há-de Ele intervir?
E intervém verdadeiramente em cada um, que comungando em Igreja se vai dando, vai falando, vai criticando e mesmo que, por muitas vezes pareça que essa entrega, essas palavras, essas críticas não são ouvidas, quando elas são verdadeiras, quando elas são construção, nunca deixam de semear semente, que dará fruto quando for o seu tempo.

E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Lc 24, 30-32

Ao partir do pão, na fracção do pão, reconheceram-no!
Que momento mais perfeito, que celebração mais celebrada, que oração mais profunda existe para O reconhecermos, do que a Eucaristia!

E onde, e como, e quando acontece e se celebra a Eucaristia, se não em Igreja, na Igreja.

Como posso eu querer reconhecê-Lo, quando tendo conhecimento da Igreja, tendo estado em Igreja, me coloco fora dela?

Diz-nos a Doutrina que a Consagração acontece sempre que um sacerdote ordenado no pleno uso e direito do seu ministério a celebra, independentemente do próprio acreditar ou não naquele Mistério, naquele Sacramento da presença viva de Jesus Cristo no meio de nós.

Ou seja, Cristo está sempre presente na Igreja, independentemente dos homens que a constituem, e assiste-lhes sempre independentemente dos seus pecados, dos seus erros, e não deixa de os perdoar, iluminar e conduzir pelo Espírito Santo, como tem feito ao longo destes 2000 anos e continuará a fazer, pois essa é a Sua promessa.

A Igreja é constituída por homens, mas vai muito para além dos homens!
Como posso eu decidir afastar-me da Igreja, se é em Igreja que eu sou verdadeiro discípulo de Cristo?
Não será um pecado contra o Espírito Santo, não acreditar que Ele assiste a Igreja em todos os momentos?
E se eu acredito que o Espírito Santo assiste a Igreja em todos os momentos, como posso eu não acreditar que a Igreja é una, santa, católica e apostólica?
Como posso eu rezar o Credo, fora da Igreja?
E se os homens, ou melhor, alguns homens da Igreja não se deixam conduzir pelo Espírito Santo, isso significa que o Espírito Santo deixa/deixou de assistir a Igreja?

Se assim fosse, há muito que a Igreja tinha acabado!
Mas Ela não acabou, nem acabará porque o Espírito Santo a assiste independentemente dos homens que a constituem.

Eu amo a Igreja, e é em Igreja e na Igreja que eu reconheço Jesus Cristo na celebração dos Sacramentos, presença viva de Cristo, nas irmãs e irmãos que a constituem, presença viva de Cristo eles também, e nas irmãs e irmãos que mesmo afastados são também presença de Cristo vivo para mim, porque é assim que a Igreja me ensina.

E se a prática da Igreja não reflecte sempre isto mesmo, é porque eu e aqueles que a constituem somos fracos, somos pecadores, e muitas vezes nos afastamos do caminho e não deixamos que o Espírito Santo faça em nós a vontade de Deus.

Mas a Igreja permanece viva, una, santa, católica e apostólica, vencendo o pecado porque: «as portas do abismo nada poderão contra ela.» Mt 16, 18
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14 novembro 2008

Maria, nossa Mãe 2

Quando em oração ia pedindo ao Espírito Santo que me inspirasse o que deveria escrever sobre Maria, como havia de colocar no papel a minha vivência da devoção a Maria, veio ao meu coração este simples pensamento: «Maria é caminho para Cristo».

Fiquei a pensar nesta verdade, tantas vezes esquecida, mesmo por aqueles que se dizem tão devotos de Maria: «Maria é caminho para Cristo».

É Maria, Ela mesma que nos diz quando nos aproximamos, que Cristo é o tudo, é o todo, e que tudo deve ser apenas caminho para Ele.

Tenho para mim, no meu coração, que Maria nunca se deve ter referido a Jesus, falando com outros, como:”O meu Filho”.

E nunca o deve ter feito porque para Ela, o seu Filho ia muito para além dessa filiação, dessa sua entrega, o seu Filho era o Filho de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor e assim sendo, seu Senhor também.

Tudo em Maria aponta para Cristo, numa vivência perfeita da frase de João Baptista: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (J0 3,30)

E nós seus devotos, devemos ter sempre isto bem presente no nosso coração, nas nossas atitudes, porque é isto que Ela, a Mãe, quer de nós, ou seja, que através dEla vejamos Cristo, vivamos Cristo, que guardemos no coração (Lc 2, 51), o que dEla nos vem, como forma de melhor chegarmos ao conhecimento de Jesus Cristo.

Porque Cristo é o todo, é o tudo e Maria, (tal como nós), é com Ele também o tudo e o todo, mas só porque Ele o quer assim, mas só porque nEle, em comunhão com Ele, partilhamos o tudo e o todo.

E é isto que Maria quer, que com Ela possamos encontrar o todo e o tudo que Jesus Cristo é.

Maria é Mãe de Jesus Cristo, enquanto Homem, enquanto encarnação de Deus dado aos homens por vontade do Pai, mas Maria sabe em si, no seu coração que Jesus Cristo É, ou seja, que o seu Filho sempre existiu, não teve principio nem tem fim, é verdadeiramente eterno e por isso mesmo Ela é a Serva do Senhor, porque sempre existiu no coração de Jesus Cristo antes mesmo de Jesus Cristo existir no seu coração.

Por isso em Maria tudo é Cristocêntrico, tudo aponta para Cristo e só assim se realiza a vontade de Deus, só assim se realiza a missão de Maria.

Mas muito melhor do que tudo aquilo que eu possa escrever, é a clareza da Doutrina da Igreja Católica tão bem expressa no Capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium.

66. Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial. E, na verdade, a Santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de «Mãe de Deus», e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades (191). … Este culto, tal como sempre existiu na Igreja, embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração, que se presta por igual ao Verbo encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente. Na verdade, as várias formas de piedade para com a Mãe de Deus, aprovadas pela Igreja, dentro dos limites de sã e recta doutrina, segundo os diversos tempos e lugares e de acordo com a índole e modo de ser dos fiéis, têm a virtude de fazer com que, honrando a mãe, melhor se conheça, ame e gloria fique o Filho, por quem tudo existe (cfr. Col. 1, 15-16) e no qual «aprouve a Deus que residisse toda a plenitude» (Col. 1,19), e também melhor se cumpram os seus mandamentos.

67. Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todas os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos (192). Aos teólogos e pregadores da palavra de Deus, exorta-os instantemente a evitarem com cuidado, tanto um falso exagero como uma demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus (193). Estudando, sob a orientação do magistério, a Sagrada Escritura, os santos Padres e Doutores, e as liturgias das Igrejas, expliquem como convém as funções e os privilégios da Santíssima Virgem, os quais dizem todos respeito a Cristo, origem de toda a verdade, santidade e piedade. Evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro acerca da autêntica doutrina da Igreja os irmãos separados ou quaisquer outros. E os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes.

Compreendo eu agora que, antes de continuar este testemunho da minha vivência da devoção à Santíssima Virgem, me/nos devemos colocar na perspectiva certa, correcta, de acordo com a Doutrina da Igreja Católica do modo como devemos honrar, louvar a Mãe do Céu, sem cairmos em exageros que façam dEla aquilo que Ela não é, nem quer ser, mas que também não diminuam aquilo que Ela é, e tem como missão dada por Deus, ser.

Para fazermos a vontade do Seu Filho, que no-la deu como Mãe, (Jo 19, 26-27), para fazermos a sua vontade que apenas pode ser a vontade do Seu Filho.
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06 novembro 2008

Maria, nossa Mãe

Quando ao fim de cerca de vinte e cinco anos de afastamento total da fé, senti dentro de mim necessidade de me reaproximar de Deus, da Igreja, foi particularmente difícil a minha compreensão, a minha aceitação da figura, ou melhor do “papel” de Maria na história da salvação, não na sua condição de Mãe de Jesus Cristo, mas de interventora e intercessora constante na vida dos crentes, na vida daqueles que procuram Jesus Cristo, na vida daqueles que Lhe são devotos.

As conversas que fui tendo com diversas pessoas, algumas delas com uma opinião muito negativa, outras sem opinião formada e outras ainda sem conhecimentos para um cabal esclarecimento, tornaram difícil essa minha desejada aproximação à nossa Mãe do Céu.

A acrescer a estas impressões, parecia-me também muitas vezes exagerada a “importância” dada a Maria, em “confronto” com a importância dada a Jesus Cristo, a Deus, por muitos daqueles que frequentavam a Igreja.

Mas eu lia a vida de Santos devotos de Maria e outros livros sobre a Mãe, e ficava triste comigo mesmo por não conseguir perceber, por não conseguir viver, sentir esse amor acrisolado que nesses livros via tão bem descrito.

Tive a consciência também, de que sendo a minha mãe de sangue uma pessoa de oração diária, de uma dedicação total e inteira à família, aos filhos, não deixava de ter inscrito na sua maneira de educar a dureza desses tempos passados, a exigência permanente de uma “perfeição” difícil, um afastamento emocional, sentimental, que eu apesar de tudo sabia ser muito mais exterior, do que interior, mas que não deixava de pesar na minha ideia do que era o amor materno.

Para que não haja dúvidas, tenho a certeza de que se hoje caminho com Cristo, para Cristo e em Cristo, foi porque a minha mãe mO transmitiu desde a mais tenra idade, sempre me deu testemunho dEle na sua vida e nunca deixou de rezar para que eu O reencontrasse. Amava profundamente a minha mãe, como sei que ela me amava, mas nunca tive com ela esses arroubos de amor materno/filial de que eu tanto me apercebia nos livros que lia.

Por tudo isto, Maria não entrava na minha vida, no meu caminho de conversão, de salvação, e no entanto eu sentia, eu sabia no meu íntimo que precisava dEla.

E rezava, e rezava, e pedia ao Seu Filho a graça de poder perceber, mais do que perceber, viver esse amor maternal que Ele mesmo nos tinha querido dar a conhecer e viver no momento da Sua entrega por nós.

Lentamente o Espírito Santo foi-me conduzindo nesse caminho de descoberta da Mãe, que disse sim, e que com o seu sim, aceitou o plano de Deus para os homens e assim nos trouxe Jesus Cristo que nos revelou que Deus é Pai, que Deus é amor, que a todos ama e a todos quer salvar.

E serviu-se primeiramente dos meus defeitos maiores, ou seja, do meu orgulho, da minha vaidade, da minha mania de superioridade, de julgar os outros, de me achar melhor do que eles.

Fez-me perceber que aquela Mulher simples, humilde, tinha sido escolhida para ser a Mãe do Salvador, precisamente por isso, por ser simples, humilde, abandonada nas mãos de Deus e que apesar da sua fragilidade não temia arrostar com os costumes de então, não tinha medo que os seus “pergaminhos”, os seus “parentes caíssem na lama”, não tinha medo de afirmar a sua fé, de aceitar a vontade de Deus por muito difícil que ela fosse, e orgulhosamente, com o orgulho humilde daqueles que são escolhidos por Deus, dissesse: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» Lc 1, 38

E “mostrou-me”, para que eu não tivesse dúvidas do que acima afirmo, que logo a seguir a ter conhecimento de que ia ser a Mãe de Deus, a sua primeira atitude é servir, é humildemente fazer os trabalhos domésticos que sua prima Isabel não podia fazer por causa da sua gravidez, da sua idade.

Sim, não se sentou numa “poltrona” e não chamou ninguém para a servir, para a “bajular”, não saiu para a rua a gritar a toda a gente que era a escolhida, que era a Mãe de Deus e que todos Lhe deviam “vassalagem”.

Não, não foi nada disso que Ela fez, mas sim: «Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia.» Lc 1,39

«Por aqueles dias», os dias em que tinha sabido que ia ser a Mãe de Deus, «dirigiu-se à pressa», sim à pressa porque a sua prima Isabel precisava dela para fazer os trabalhos de casa, os trabalhos mais simples, e por ali ficou a servir «cerca de três meses» Lc 1,56, regressando depois a casa, para continuar a sua vida simples e humilde, como se nada tivesse mudado na sua vida.

Porque quem faz a vontade de Deus, vive consciente de que é Ele que tudo faz com a nossa entrega, com o nosso empenho em servir-Lo, servindo os outros, e por isso nos retribui com a graça do amor e da paz.

E Maria servindo a Deus com o seu sim, estava a servir a humanidade precisada do Salvador.


(continua)

13 outubro 2008

O engano das mensagens "piedosas"

Chegou às minhas mãos mais uma dessas mensagem com imagens, música e texto, igual a tantas outras que circulam por aí e constantemente invadem as nossas caixas de correio electrónico.

Fiquei a pensar no assunto e percebendo como estas mensagens são um logro, um engano em que às vezes aqueles que estejam menos preparados, ou mais frágeis emocionalmente, podem cair.

E são engano e logro em, pelo menos, dois sentidos:

Primeiro porque não levam a nada em termos práticos, a não ser criar falsas esperanças e ideias “perigosas” na cabeça das pessoas, tais como, que não é preciso trabalhar, esforçar-se, porque com o “poder da mente”, porque deus, (aqui de propósito em letra pequena), tudo faz e nós não temos que fazer nada a não ser pensar.

Segundo porque são um embuste “religioso”, ou seja, falando de Deus e levando a crer que têm a ver com a fé em Deus, (sobretudo a fé cristã, embora não sejam especificas nesse campo), acabam por ser apenas e só portadoras de uma mensagem de espiritualidades baseadas no homem e apenas no homem.

O primeiro engano é claro e porque muito que digam que experimentaram e deu resultado, não deveriam conseguir enganar ninguém, porque se assim fosse, não haveriam, por exemplo, as crises como a que agora estamos a viver.
Bastava pensar, meditar, e tudo passava!!!

Segundo porque falando de Deus, apontam para tudo menos para Deus, que nestas mensagens acaba por ser apenas o “fazedor” daquilo que nós queremos e desejamos.

Claro, que nelas existe uma parte em que se afirma que o que desejamos não pode ser contra outros, que tem que ser para o bem, etc., mas também era o que mais faltava que não dissesse!

Mas a verdade é que toda a mensagem é voltada para as capacidades do homem sozinho e Deus apenas ali aparece como modo de enganar as pessoas que têm fé, mas não têm uma formação cristã enraizada nas suas vidas.

O início desta mensagem que me enviaram, por exemplo, começa assim:

Você acredita no poder da mente?
No poder da vibração?
Da energia que emanamos e que nos conecta com todo o universo?
Com Deus, com os Anjos e Santos?
Com todas as pessoas, coisas e seres?

Se repararmos, Deus vem em quarto lugar, pois nos três primeiros aparece o homem e as suas possíveis capacidades.

Claro que o homem tem capacidades, Deus dotou-o com elas!
Mas estas capacidades atingem a sua plenitude na comunhão com Deus, e é nEle, por Ele e com Ele, que elas transportam o homem ao melhor de si próprio e o levam a vencer as dificuldades que a vida lhe apresenta.

E poderíamos analisar toda a mensagem e reparar que em tudo ela aponta para uma falsa felicidade, a felicidade em que tudo é conseguido apenas com o esforço da mente, e em que Deus é “peça” secundária pois está ali para fazer o que nós desejamos.

E Deus tem ali os tempos marcados! Fica nosso refém!

Tem que nos dar o que pedimos ao fim de 10 minutos, neste caso.
Noutros ao fim de x dias, ou depois de distribuirmos não sei quantas fotocópias!
Sim falo aqui também neste “fenómeno” das orações de intercessão dos Santos, (que são uma prática religiosa da tradição da Igreja em tudo saudável), mas que nada têm a ver com um x número de fotocópias que se distribuem pelas igrejas, como forma de obter o que se pede!
Como se Deus estivesse a contar o número de fotocópias!!!

E depois estas mensagens trazem sempre uma mensagem sub-reptícia de temor, que tem a ver com a possibilidade de, não fazendo o que se pede, poder acontecer algo de mau, ou então se não enviar a mesma para não sei quantas pessoas o pedido, o desejo não acontecer.

E pior ainda, pois se não reenviarmos a mensagem para outros tantos, não somos amigos de Deus, não somos bons cristãos!!!

É também de reparar nos símbolos utilizados, como pirâmides, esferas, e por aí fora, que apontam para “espiritualidades” que nada têm a ver com Deus e com a fé cristã e católica.

Bem, não será preciso alongar muito mais esta reflexão, para se chegar à conclusão de que Deus é tratado nestas mensagens como o “génio da lâmpada”!

A verdade é que estas mensagens são fantasias dos homens, vozes de falsos profetas, que apenas confundem as pessoas, e que mais tarde ou mais cedo as podem levar a um desespero pela não obtenção dos seus desejos e a uma revolta contra Deus, que afinal nada tem a ver com estas práticas dos homens.

É na nossa comunhão com Deus e com os outros, fazendo o trabalho a que somos chamados com empenho e dedicação, aceitando e ultrapassando as dificuldades e provações próprias das nossas vidas, preocupando-nos e ajudando os que mais precisam, orando e celebrando o nosso Deus de misericórdia, louvando-O, glorificando-O, dando-Lhe graças em tudo e pedindo-Lhe a Sua ajuda, sempre segundo a Sua vontade, que encontraremos a felicidade da vida eterna na Sua presença, que começa já aqui e agora, se quisermos ser parte viva do Reino de Deus.

29 setembro 2008

A Igreja Católica

Vou ouvindo e lendo diversos cristãos católicos e fico triste, muito triste.

A Igreja Católica é por alguns deles muito mal tratada, é mesmo alvo de muitas criticas e ataques, alguns até de uma certa violência oral e escrita.

E a maior parte das acusações podem resumir-se praticamente apenas numa: “abuso de poder”.

E as razões apresentadas dizem que são porque proibiu este ou aquele teólogo, porque estabeleceu determinada regra, porque não deixa as pessoas serem “livres” para fazerem o que lhes apetece, etc., etc.

Mas a acusação que mais me espanta é a de que a Igreja não interpreta verdadeiramente, não é “fiel depositária” da Doutrina de Jesus Cristo!

Mas aqueles que assim escrevem consideram-se eles próprios os detentores da “verdade” baseados em conhecimentos que não se percebe bem de onde vêm, e em interpretações da Bíblia tantas vezes feitas para darem cobertura às suas reflexões.

Não, não estou a dizer que sejam mal intencionados a maior parte deles, pelo contrário, julgo que buscam a verdade, mas infelizmente, digo eu, a sua própria verdade.

Curiosamente a autoridade doutrinária que eles recusam à Igreja de Cristo, fundada em Pedro, reconhecem-na, ou julgam-se eles detentores da mesma, fazendo afinal o mesmo de que acusam a Igreja.

Muitos deles afirmam peremptoriamente na sua escrita o que a Igreja Católica devia ou deve ser, como que intérpretes indiscutíveis da vontade de Jesus Cristo, negando aos outros, à própria Igreja, as suas interpretações, porque apenas eles não se podem enganar.

Muitas vezes a exclusão que apontam á Igreja, praticam-na eles também ao afirmarem que a Igreja é dos pobres, dos excluídos da sociedade, a maior parte das vezes apenas com uma visão material da pobreza e da exclusão, pondo de lado aqueles que estão “bem na vida”, ou que levam a vida de acordo com os valores morais comummente aceites.

E há tanto rico, que é mais “pobre” que os pobres!

E há tantos que vivem de acordo com os valores morais comummente aceites e no entanto tão afastados de Deus!

A Igreja é de todos e todos têm que nEla caber!

Jesus Cristo andou com pobres e excluídos, mas também comeu com cobradores de impostos e fariseus, que não eram nem pobres, nem excluídos da sociedade, mas pobres de Deus e “auto-excluídos” do caminho da salvação.

Não tenho dúvidas, não por qualquer revelação pessoal, mas por convicção profunda, que Jesus Cristo quando fundou a Sua Igreja em Pedro, sabia que os homens que a constituiriam seriam fracos, pecadores, que haviam de falhar muitas vezes e em muitos momentos, mas Ele também disse que: «as portas do abismo nada poderão contra ela.» Mt 16,18

E os homens falharam e continuam a falhar, mas a Igreja no seu todo, Corpo Místico de Cristo é una, santa, católica e apostólica, e enquanto tal, garante indelével da pureza da Revelação que o Pai deu aos Seus filhos, por Jesus Cristo na unidade do Espírito Santo.

Quando reflectimos na vida das Santas e Santos reparamos que por todos eles perpassam várias virtudes, uma das quais é sem dúvida a obediência por amor.

Não se venha dizer agora que foi por serem obedientes que foram “declarados” Santos, mas sim verdadeiramente porque sendo Santos tinham a graça da obediência no amor.

E com certeza que tinham a graça da obediência, porque sendo Santos, (que é afinal o que todos devíamos desejar ser), aceitavam a verdade da Palavra de Cristo, que disse: «Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» Mt 16,19, e assim sendo acreditavam e acreditam que a Igreja detêm esse poder que lhe foi dado por Deus, e mais, acreditavam e acreditam também, que se o seu caminho, as suas reflexões, os seus procedimentos estiverem em comunhão com Cristo, então mais tarde ou mais cedo a Igreja lhes dará razão, como já aconteceu tantas vezes na história da Igreja.

Porque a eles não lhes interessava ter razão, só para terem razão, porque não eram eles que eram importantes, mas interessava-lhes sim a unidade da Igreja, (para além dos homens), que não podia, nem devia ser abalada, na convicção profunda de que se fosse da vontade de Deus, aquilo que hoje podia ser causa de divisão, passaria a ser causa de mais união, comunhão e conhecimento de Deus no tempo futuro.

E não se julgue que tanto antigamente como agora nos nossos dias, eles não tinham seguidores que queriam impor as suas reflexões, os seus ensinamentos, os seus modos de viver, mas eram então eles que em obediência de amor, pelo seu testemunho de humildade, ajudavam e exortavam os outros a serem fiéis à Igreja, a serem fiéis à Palavra de Cristo.

Eles tinham feito a parte deles, orando, meditando, reflectindo, e se a Verdade lhes assistia, “competia” agora ao Espírito Santo mostrá-la aos homens da Igreja.

«O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveis» Act 15,28

«E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem.» Act 5, 32

Sim, também a mim por vezes me incomodam certas atitudes que a Santa Sé toma em relação a determinadas coisas, mas acredito, quero acreditar, tenho que acreditar, que o Espírito Santo assiste continuamente à Igreja, e se por vezes os homens se sobrepõe à Sua vontade, a Sua vontade acabará por se realizar porque: «as portas do abismo nada poderão contra ela.» Mt 16,18

Assim, descanso na certeza desta verdade, e oro, oro continuamente para que os homens da Igreja estejam de coração aberto, disponíveis, fiéis e perseverantes ao Sopro do Espírito Santo, amor do Pai e do Filho derramado na humanidade.

Sei que alguns dirão que esta é uma maneira simplista de ver as coisas, mas permitam-me que vos diga que não é simplista, mas simples, porque também eu estudo, medito, reflicto, analiso e abro-me ao Espírito Santo pedindo-Lhe, exigindo-Lhe até, que me faça simples, para que o conhecimento que me é dado ter, não coloque em causa a minha Fé, mas que a fortifique, que a enraíze de tal modo que quando oro o Credo, ele seja verdade na minha boca, no meu coração, na minha vida.

Com este texto não quero dizer que a Igreja não pode ser criticada, mas pelo contrário que pode e até deve, mas numa critica construtiva em que sejamos pedras vivas na construção e não “brechas” no edifício.

Que não usemos argumentos estafados como a “opulência”, as vestes, os rituais, a própria liturgia, mas sim que oremos, que peçamos a assistência contínua do Espírito Santo à Igreja, aos homens escolhidos para nos guiarem, e que nunca deixemos de fazer chegar a esses mesmos homens as razões da nossa critica, aceitando humildemente que possamos não ter razão, ou que não tenha chegado o tempo de termos razão.

Deus ama-nos a todos nós, com todos os nossos defeitos, com os nossos pecados, que por Sua graça vamos tentado corrigir, converter, para chegarmos à graça final de vivermos puros eternamente na Sua presença.

Amemos também nós a Igreja, com todos os defeitos e pecados dos homens que a constituem, principalmente daqueles que foram chamados a servi-La no Seu Magistério, na Fé de que o Espírito Santo nunca Lhe faltará e sempre assistirá e conduzirá na correcção do que estiver errado, na procura da pureza que dEla faz «una, santa, católica e apostólica».

23 setembro 2008

Dia de Louvor


A Maria João do blogue Deus em Tudo e Sempre escreveu este texto sobre o Dia de Louvor da Comunidade Luz e Vida.


Agradecendo-lhe por isso, aqui fica a sua vivência desse dia.


O sopro da Vida


Este domingo estive num encontro de oração da Comunidade Luz e Vida, em Fátima. Quem me convidou foi o Joaquim do Que É a Verdade. Abençoada a hora e abençoado ele seja. Foi um dia muito bom de louvor e oração a Jesus e a Maria. Aqui fica um pouco do que vivi e aprendi.


- A Felicidade está dentro de nós. O Amor está dentro de nós. E porquê? Porque Cristo está dentro de nós e só Ele é o verdadeiro Amor. Já olhaste para dentro de ti? Não busques a felicidade e o amor só fora de ti. Sabes o que acontece? Vais viver consoante aquilo e aqueles que encontras. E, quando todos eles partirem, vais sentir-te só e desamparado. Claro que com isto não quero dizer que não deves amar ninguém. Deus não quer isso. Podes e deves amar, mas deves saber amar. Quando perdes alguém, não te esqueças que continuas a ter Amor dentro de Ti. Esta é a verdade. O Amor está dentro de nós, independentemente de quem está ou já passou na nossa vida. Ninguém te pode tirar o Amor e a Felicidade. E quando parece que isso aconteceu, lembra-Te: o Amor está dentro de mim. Vamos dizer a nós próprios: “Vou sair desta solidão, leve o tempo que levar. Deus vai ajudar-me.”

- Deus, ou seja o Amor, está dentro de ti. Com isso não podes fazer nada. Podes abafá-Lo, criar um “deus” feito à tua medida, um “deus” só para de vez em quando, podes negá-Lo, mas Ele continua em Ti, à espera que O deixes amar-te e iluminar-te, através do Seu Espírito.
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- E não te esqueças que Deus só te dá aquilo de que necessitas. Só permite o sofrimento que consegues aguentar (mesmo que não pareça) e que te leva a aprender e a ver o Bem. Aproveita o que Ele te dá. Não deites fora.

- Para isso tens de deitar fora todo o “entulho” de mágoas, traumas, raiva, ódio, vingança, julgamento, vícios… O Amor só age se esse entulho desaparecer. Costumamos dizer que não conseguimos ser felizes… Só há uma razão para isso: ainda não deitámos fora o “entulho”. Por que o Amor, Deus, está dentro de nós e nada, nem ninguém nos podem tirar a Felicidade e a Paz que Deus tem.

- Mas – perguntas tu – como vou tirar o “entulho”? Há tantos anos que sofro? Muitos dirão ao ler isto: “Eu acredito em Cristo e faço a Sua Vontade, mas continua a haver uma mágoa dentro de mim... Como tiro este “entulho”? Com a ajuda de Deus. Com o tempo. Com a ajuda de quem também já aprendeu a tirar o “entulho” e a deixar o Espírito agir. Vai levar tempo. Podes precisar até de ajuda médica, nos casos dos traumas. Mas vais conseguir. Deus está em ti e o Seu Amor ninguém te o pode tirar. Podes tê-lo abafado. Mas, Ele continua lá á Tua espera, cheio de Misericórdia. Procura uma comunidade de oração. Pessoalmente, já percorri algumas. Todas me ajudaram. Mas, a que mais me tem ajudado a tirar o “entulho” – próprio a qualquer ser humano – é a do Renovamento Carismático.

- Não vás atrás das ideias feitas de que são uns malucos que andam por aí. O Renovamento não é mais do que renovares Deus em Ti. É aceite pela Igreja e há pessoas das mais variadas ordens e institutos que fazem parte destes grupos de oração. É aprenderes a viver Cristo, a teres um compromisso com Cristo e com o teu próximo, a viveres o Evangelho, a aprenderes a carregar as cruzes, que às vezes, são tão pesadas. Há vários grupos por todo o país. Informa-te em http://www.ecclesia.pt/rcc/.


- Atenção: os grupos de oração, se são de Deus, são todos importantes. Falo do Renovamento, porque pessoalmente e para muitas pessoas, foi uma lufada de ar fresco na nossa fé e no Amor por Deus. O caminho para Deus, para o Amor, não tem de passar pelo Renovamento, mas também pode passar por aí, daí ter falado disto. O importante é haver oração, palavra e acção, com compromisso e vivendo Cristo na Sua Amada Igreja.

- As pessoas estão cansadas de lhes falarem de Deus e de não O sentirem. Quantas vezes se vai à missa, se reza, se faz o Bem, mas sentimos que falta algo… Pois, também sei o que isso é. Falta o compromisso e o viver Cristo. Viver o Seu exemplo que nos liberta. Não penses que vais deixar de ter cruzes. A cruz faz parte da vida. Mas, vais sentir-Te amado por Deus e vais senti-Lo como realmente Ele é: Amor. Não apenas como um “deus” de tradições que se cumprem por se cumprir.

- E não te esqueças: Jesus pede-Te um compromisso diário. Um compromisso que nos torna mais livres. Conheces Jesus… Leva-O aos outros com oração, palavra e acção. Se O guardas dentro de Ti, vais abafá-Lo. O compromisso é para todos os baptizados. Não apenas para os padres, freiras e seculares. Não te esqueças do que Jesus te pede: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho” (Mc 16, 15) e “E Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20).
Maria João Garcia

29 agosto 2008

DIA DE LOUVOR






DIA DE LOUVOR


Anfiteatro Paulo VI – Fátima ..... Domingo 21 de Setembro de 2008




Tema: “... dar-vos-ei o sopro da vida, para que revivais.
Sabereis assim, que Eu sou o Senhor.» Ez 37, 6




O Dia de Louvor será orientado pelo Pe Marcelo Cavalcante de Moraes.
Padre da Comunidade Luz e Vida, incardinado na diocese de Leiria-Fátima, membro da direcção nacional do RCC, membro do Secretariado Diocesano do RCC e vigário paroquial na paróquia de Maceira.

Inscrições

As inscrições, (cada crachá 5€), são feitas por telefone 236931251 ou junto da comunidade até ao dia 13 de Setembro

Horário para telefonar

Às Quartas, Quintas e Sextas-feiras, de manhã das 10h às 12h e à noite das 21h às 22h

Limite de Inscrições

Só se aceitam inscrições até a sala estar cheia. Nessa situação, como tem acontecido, não aceitamos mais inscrições, mesmo dentro do prazo.


Programa


08h30 – Abertura das portas e acolhimento

09h00 – Louvor da manhã

10h00 – Primeiro ensinamento

10h45 – Intervalo

11h15 – Eucaristia

12h45 – Almoço

14h30 – Testemunhos e apresentação do
Projecto da comunidade

16h00 – Segundo ensinamento

17h00 – Adoração ao Santíssimo com oração de cura e libertação

18h00
18h30 – Termo do encontro


O Coordenador
Pe Filipe da Fonseca Lopes
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11 agosto 2008

Dá-lhe uma cana, não lhe dês o peixe...


No outro dia, quando estava na Missa e durante a acção de graças, veio ao meu pensamento aquele provérbio ou ditado chinês, (segundo dizem), e que diz mais ou menos o seguinte:
«Não dês ao pobre o peixe, mas dá-lhe uma cana e ensina-o a pescar.»
Fiquei ali a pensar um pouco no que é que o Senhor me queria dizer com aquilo e depois da Missa e já em casa, e até agora, volta e meia o provérbio vem ao meu pensamento.
Nós somos os pobres que tudo pedimos a Deus e muito gostaríamos que Ele tudo nos desse sem termos nenhum trabalho, ou seja, sem conduzirmos as nossas vidas segundo a Sua vontade.
Mas Ele que nos conhece bem melhor do que nós nos conhecemos, nunca nos dá tudo o que queremos, e sobretudo não nos dá sem haver esforço do nosso lado, porque Ele sabe muito bem que se nada nos faltar, também Ele, pensaremos nós, nos deixará de fazer falta, e sem Ele não poderemos salvar-nos, não poderemos encontrar a verdadeira felicidade.
Ou seja, Deus não nos dá o peixe, mas dá-nos a cana e ensina-nos a pescar.
‘Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.»’ Jo 21,6
Mas muitos de nós também, em vez de nos servirmos da cana que Ele nos dá para pescarmos, para encontrarmos o caminho das nossas vidas, deitamos fora a cana e vamos procurar outra ou outras canas, pensando nós que serão melhores e mais rápidas para encontrarmos a felicidade.
A cana que Ele nos dá chama-se amor, as canas que nós procuramos e com as quais pensamos conseguir a vida chamam-se dinheiro, egoísmo, obcecação pelo trabalho, obcecação pelo sexo, etc, etc.
É que com estas canas, parece-nos que alcançamos muito rapidamente aquilo que julgamos ser a felicidade, mas a verdade é que esses momentos são muito efémeros, podem durar mais ou menos tempo, mas acabam sempre e normalmente com grandes frustrações.
Já a cana do amor, usada com os ensinamentos do Mestre leva-nos a encontrar o verdadeiro sentido da vida e assim sendo o caminho da felicidade que encontra a plenitude na comunhão com Cristo.
O “peixe” que pescamos com a cana que Deus nos dá, é sempre um “peixe” que acrescenta algo às nossas vidas, que nos vai fazendo crescer, que se torna vida em nós e que por fim nos leva ao encontro final e eterno com Deus.
O “peixe” que pescamos com as canas que arranjamos no mundo, é sempre um “peixe” que serve no momento, mas depois se esgota, que nada acrescenta às nossas vidas a não ser momentos fugazes de prazer, que acaba por nos conduzir a uma eternidade sem Deus, e portanto a uma eternidade “morta”.
O curioso é que com a cana que Deus nos dá também podemos pescar coisas do mundo, e servirmo-nos delas para nós e para os outros, mas com as canas que o mundo nos dá nunca podemos pescar as coisas de Deus, que nos dão a verdadeira vida.
«Dá-nos Senhor, a cada um, a cana que precisamos em cada momento, para “pescarmos” com o Teu amor e no Teu amor, as nossas vidas.»

18 julho 2008

Ano Paulino, Uma Proposta Pastoral

Introdução

Paulo pode guiar-nos em todos os caminhos de escuta da Palavra: na celebração da Páscoa; na evangelização, como primeiro anúncio de Jesus Cristo; no aprofundamento da fé, em processo catequético; na fidelidade a Deus, vivendo segundo as exigências da Palavra; no fortalecimento da esperança, pois toda a Palavra de Deus nos abre para o horizonte da eternidade.

2.

Paulo teve desilusões e sucessos e pode inspirar a Igreja actual a discernir, nos anseios dos homens e mulheres do nosso tempo, aberturas à Palavra de Deus. Ela é chamada a ler, nas buscas e inquietações humanas, os “sinais dos tempos”, indicativos da necessidade e do desejo da salvação (cf. G.S. nn. 4 e 11).

3.

Esta fidelidade de Paulo a Jesus Cristo sugerir-nos-á caminhos de conversão para todos os evangelizadores, também eles chamados a deixarem-se possuir por Jesus Cristo para poderem anunciar o Seu Evangelho.

4.

O Ano Paulino pode ajudar-nos a sistematizar essa pastoral específica, porque Paulo foi o maior evangelizador de todos os tempos. Ele continua a ser exemplo inspirador do ardor da evangelização e da natureza específica do anúncio querigmático.

Um novo ardor

Esta paixão por Jesus Cristo e a certeza de que na Sua Cruz se decidiu o novo destino humano, geram em Paulo a urgência da evangelização, em que ele se sente como cooperador de Deus (cf. 1Co 3,9). “Ai de mim, se eu não evangelizar!” (1Co 9,16). A evangelização é o seu futuro, o sentido do tempo que lhe resta para viver, o que o leva a relativizar o seu passado (cf. Fil 3,13).

O anúncio querigmático

Neste Ano Paulino, temos de pressentir por que caminhos nos conduziria Paulo, se partilhasse hoje, connosco, a missão evangelizadora da Igreja.

A exigência do percurso catequético

O Ano Paulino oferece-nos estímulo para aperfeiçoar a nossa catequese e conceber a acção pastoral como um meio de aprofundar um processo contínuo de iniciação cristã.

Prioridade da experiência comunitária da fé

O Ano Paulino oferece-nos ocasião de uma reflexão pastoral sobre a verdade da Igreja e a maneira de construir a unidade da comunhão, na imensa variedade de carismas que voltaram a enriquecer a Igreja do nosso tempo. As estruturas da CEP são chamadas a estar mais atentas a esta realidade que, se constitui uma riqueza da Igreja, é também o seu principal desafio na construção da unidade.

Corresponsabilidade na missão

Podemos aprender com Paulo o fundamento da verdadeira corresponsabilidade dos cristãos na missão da Igreja, aspecto de grande actualidade quando o Concílio tornou claro que a Igreja é o verdadeiro sujeito da missão e que todos os baptizados são corresponsáveis, segundo a sua graça própria ou o ministério que lhes foi entregue. A importância e especificidade do ministério ordenado não podem significar a clericalização da Igreja.

Propostas de meios pastorais para a vivência do Ano Paulino

8. Como acabámos de ver, o Ano Paulino oferece uma ocasião riquíssima para o nosso serviço às Igrejas. Cada uma encontrará os meios que considere os mais adaptados para o viver e celebrar. No entanto a Conferência Episcopal, órgão ao serviço da unidade de todas as Igrejas de Portugal, propõe a todas os seguintes instrumentos pastorais:

8.1. “Um ano a caminhar com São Paulo”. Trata-se de um itinerário catequético, tendo Paulo como guia, que além do conhecimento mais profundo do Apóstolo, nos fará percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho cristão. Apresenta um tema para cada semana do ano e destina-se, além das pessoas individualmente, às famílias, aos grupos paroquiais, à pastoral juvenil, aos Movimentos.

8.2. A vivência da Liturgia. Os textos de São Paulo são dos que mais continuamente são lidos na Liturgia. Propomos, durante este ano, uma valorização destes textos, sobretudo nas homilias, não esquecendo que a Liturgia é a grande catequese da Igreja. A Comissão Nacional de Liturgia preparará elementos que ajudem os pastores das comunidades a realizar este objectivo.

8.3. Estudos sobre São Paulo. A Faculdade de Teologia, nos seus diversos Centros e Escolas filiadas, oferecerá ao Povo de Deus, sessões de estudos paulinos.

8.4. Valorização de outras ofertas, particularmente a apresentada pela família Paulista (Padres, Irmãs paulistas e Pias discípulas).

8.5. A festa da conversão de São Paulo, no próximo ano, será celebrada ao Domingo. Será organizada uma grande celebração nacional nesse dia, na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, centrada num aspecto englobante da doutrina de Paulo.

9. Ao celebrar o Ano Paulino, queremos ter o Apóstolo Paulo como guia inspirador da nossa missão de pastores, de todos os evangelizadores, de quantos, neste mundo secularizado, querem viver connosco a aventura da Igreja.

Fátima, 6 de Maio de 2008
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Conferência Episcopal Portuguesa
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12 julho 2008

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos...»

Como a vida lhe pesava nos ombros!
Como tudo lhe parecia perdido, os anos que tinha vivido, a entrega que tinha feito àquela família, o empenho que nela tinha colocado.
Tudo se desmoronava como um castelo de cartas, agora que, depois de anos e anos de violência doméstica tinha decidido pôr fim àquela união!
O que mais lhe custava ao ter saído de casa por vontade própria era pensar que não se podia aproximar mais daquEle que tinha sido e era a sua força, a sua alegria, no meio de tanta incerteza, de tanta dor, de tanta revolta.
Tinham-lhe dito que se saísse de casa, se abandonasse aquela união, aquele casamento, nunca mais poderia aproximar-se da Comunhão, da Eucaristia, e isso tinha-a levado sempre a dar cada vez mais de si, a perdoar cada vez mais as afrontas, as violências, mas agora já não podia mais porque a sua vida estava em risco e com ela a dos seus filhos.
Não conseguia imaginar a sua vida sem a Comunhão, sem a Eucaristia, sem sentir e viver a presença constante do amor de Deus na sua vida.
Não podia ser assim!
Ela sentia que não podia ser assim!
Diziam-lhe que não, que não havia possibilidades, que era Doutrina da Igreja, que a Igreja não aceitava as pessoas que “abandonavam” os seus casamentos, mas ela, embora por vezes revoltada com aquela Igreja, sentia que algo estava mal, que verdadeiramente não era assim.
Deus não podia querer que ela colocasse a sua vida e a dos seus filhos em risco, perante a violência que aquele que ela tinha escolhido para seu marido e pai dos seus filhos, vinha exercendo diariamente sobre ela e sobre eles.
Ela sabia que tinha feito tudo, tudo o que lhe era humanamente possível, para resolver aquela situação.
Tinha perdoado, tinha esquecido, tinha calado, tinha rezado, (se tinha rezado, todos os dias fervorosamente), tinha pedido ajuda para ele e para ela e nada, nada mudava, a violência continuava e cada vez mais perigosa, (parecia até que a sua maneira de estar, de perdoar, ainda o levava a fazer pior), de tal modo que sentia que a sua vida agora estava verdadeiramente em risco e que portanto tinha de tomar a decisão que acabou por tomar.
Mas não acreditava, apesar de tudo o que lhe diziam, que a Igreja não a acolhesse no seu seio, não acolhesse aqueles que sofrem.
Decidiu ir falar com alguém que realmente lhe dissesse a verdade da Doutrina, a verdade do que a Igreja dizia sobre o problema que ela vivia e sobre o qual tinha tomado aquela decisão tão amarga e difícil.
Procurou um sacerdote, alguém da sua confiança, aquele que tantas vezes a tinha acolhido e com ela tinha vivido esses momentos tão difíceis, e abriu-lhe o coração.
Queria saber, como tantos lhe diziam, se já não podia ir à igreja, se já não podia participar da Eucaristia, se já não podia confessar-se e receber a Comunhão.
Queria saber enfim, se aos olhos da Igreja ela era uma proscrita, uma não desejada, uma que já não era aceite.
O sacerdote, mais uma vez, ouviu-a em silêncio, pesou todas as suas palavras, todas as suas dores, todas as suas razões, todos os seus motivos e por fim disse-lhe:
- Conheço bem o teu caso, o teu problema e a amargura, a dor, com que tomaste a decisão de sair de casa com os teus filhos.
Sei bem que fizeste tudo o que estava ao teu alcance para evitar esta decisão, que chegaste até a humilhar-te, para tentar salvar o teu casamento.
Quero dizer-te em primeiro lugar que a Igreja nunca afastou ninguém do seu seio, pelo contrário tenta sempre acolher aqueles que sofrem, aqueles que se sentem sozinhos, aqueles que procuram em Deus a realização plena das suas vidas.
Muitos membros da Igreja não entendem assim, (não os podemos condenar, porque com certeza não têm o conhecimento suficiente do Mistério que é a Igreja), e por isso julgam o que não deviam julgar e tomam como certas, opiniões que afinal são só suas.
Mas não, a Igreja não condena o teu acto, porque o tomaste depois de esgotadas todas as hipóteses de solução, depois de teres tentado até ao limite das tuas forças salvar o Matrimónio que um dia contraíste livremente perante Deus, e que por razões várias acabou por se transformar numa prisão perigosa para ti e para os teus filhos, deixando de ser a realização plena do amor entre homem e mulher que Deus quis e para o qual os criou.
Podes, digo-te eu, participar da Eucaristia, comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, confessar-te sempre que precisares e o desejares, apenas com a condição de te manteres casta, sem te unires a outro homem, a não ser que, por razões ponderosas que eu não posso analisar aqui, o Tribunal Eclesiástico analisando as condições em que foi celebrado e vivido o teu Matrimónio, a teu pedido, possa afirmar que o Sacramento do Matrimónio não aconteceu verdadeiramente, e decretar a sua nulidade.
Mas para que não tenhas dúvidas no que te afirmo aqui te leio os cânones do Código de Direito Canónico que confirmam as minhas palavras:
«Cân 1151 – Os conjugues têm o dever e o direito de manter a convivência conjugal, a não ser que uma causa legitima os escuse.
Cân 1153 - § 1. Se um dos conjugues provocar grave perigo da alma ou do corpo para o outro ou para os filhos, ou de algum modo tornar a vida comum demasiado dura, proporciona ao outro causa legítima de separação, quer por decreto do Ordinário do lugar, quer também, se houver perigo na demora, por autoridade própria.
§ 2. Em todos os casos, cessando a causa da separação, deve ser restaurada a vida conjugal em comum, a não ser que a autoridade eclesiástica determine outra coisa.»
Claro que para teres a certeza da bondade da tua decisão, mesmo depois de tomada, deves recorrer à ajuda no discernimento de um Sacerdote, ou até mesmo do teu Bispo, que te ajudará a dares os passos certos para conformares a tua decisão com a Doutrina da Igreja.
Mas para além destas instruções que te informo, há muito mais documentos da Igreja que atestam a possibilidade dos separados, por razões como a tua e outras mais, poderem continuar a receber os Sacramentos da Igreja, e entre os quais te cito, a Exortação Apostólica “Familiares consortio”, de João Paulo II, que no ponto 83 diz:
«Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais, etc. podem conduzir dolorosamente o matrimónio válido a uma fractura muitas vezes irreparável. Obviamente que a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis.
A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão própria do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente a vida conjugal anterior.
Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária ainda, da parte desta, uma acção contínua de amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos.»
A Igreja não te condena, portanto, mas ao contrário quer acolher-te, quer ajudar-te a viveres a tua situação dolorosa e na comunhão em Igreja, em comunhão com Cristo, encontrares razões de esperança, de paz e até de alegria.
Lembra-te que é Jesus Cristo Quem nos diz:
«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos.
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito.
Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.» Mt 11,28-30

Olhou para o sacerdote agradecida e disse-lhe com a voz embargada:
Obrigado Padre, porque me fez sentir acolhida e amada pela Igreja que eu amo.
Sei e percebo que é muito difícil o que a Igreja me pede, mas acredito também que na comunhão e na entreajuda será possível levar a vida digna que sempre quis viver e as circunstâncias não permitiram.
Acredito também que se cair, porque sou pecadora, o perdão de Deus é muito maior que o meu pecado e na Confissão reencontrarei a graça de Deus na minha vida e que ela me dará forças para viver as provações que vou ter de enfrentar.
Mas tenho confiança, tenho esperança, que o amor de Deus me fará sentir que a minha vida tem sentido e é querida por Deus e amada na Igreja e é isso mesmo que quero transmitir aos meus filhos profundamente magoados no seu íntimo.
De pé, o sacerdote abençoou-a, e ela saiu de cabeça erguida da igreja, com a paz no coração, a esperança no olhar, sabendo-se filha de Deus e pedra viva da Igreja.
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Nota:
Esta é uma história inventada, mas que, para além obviamente de uma certa bondade na descrição do problema, sua solução e aceitação, quer chamar a atenção para o facto de que aquilo que se diz e que muitas vezes se toma como certo em relação à Igreja, nem sempre corresponde à realidade.

16 junho 2008

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta»

Mateus 5,20-26.
Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»
«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo.
Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco’ será réu da Geena do fogo.
Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta.
Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão.
Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»






Comentário ao Evangelho feito por

S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia depois de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre a 1ª Carta aos Coríntios, nº 24

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta»

«Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão» (1Cor 10,17).
O que é este pão? O Corpo de Cristo. E no que se tornam os que o recebem? No Corpo de Cristo.
Não são muitos corpos, mas um só.
Quantos grãos de trigo entram na composição do pão! Mas quem vê esses grãos?
Estão no pão que eles formam, mas nada os distingue uns dos outros, de tão unidos que estão.
Assim estamos nós unidos uns aos outros e com Cristo.
Não há mais muitos corpos alimentados por diversos alimentos; nós formamos um só corpo, alimentado pelo mesmo pão.
Por isso Paulo disse: «Todos participamos do mesmo pão». Se participamos todos do mesmo pão, se estamos unidos nele ao ponto de nos tornarmos um só corpo, porque é que não estamos unidos por um mesmo amor, estreitamente ligados pela mesma caridade?
Voltai a ler a história dos nossos antepassados na fé e encontrareis este quadro notável: «A multidão dos que abraçavam a fé tinham um só coração e uma só alma» (Ac 4,32).
Mas, infelizmente, hoje não é assim. Nos nossos dias a Igreja oferece o espectáculo contrário; não vemos senão dolorosos conflitos, encarniçadas divisões entre irmãos... Estáveis longe dele, mas Cristo não hesitou em vos unir a Ele. E agora vós não vos dignais imitá-Lo para vos unirdes de todo o coração ao vosso irmão?...
Por causa do pecado, os nossos corpos formados do pó da terra (Gn 2,7) tinham perdido a vida e estavam sob a escravatura da morte; o Filho de Deus juntou-lhe o fermento da sua carne, Ele, livre de todo o pecado, numa plenitude de vida.
E deu o seu corpo em alimento a todos os homens, para que, renovados pelo sacramento do altar, tenham todos parte na sua vida imortal e bem-aventurada.
Retirado de Evangelho quotidiano.

09 junho 2008

A Casa na rocha

Pregador do Papa: Palavra de Deus, rocha eterna
Comentário do Pe. Cantalamessa

Todos sabiam, no tempo de Jesus, que é imprudente construir a casa sobre a areia, no fundo dos vales, ao invés de fazê-lo no alto da rocha. Depois de cada chuva abundante forma-se, com efeito, quase de imediato, uma torrente que varre as casas que encontra à sua passagem.
Jesus baseia-se nesta observação, que provavelmente havia feito em pessoa, para construir a partir dela a parábola sobre as duas casas, que é como uma dupla parábola.
«Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha.»
Com simetria perfeita, variando só pouquíssimas palavras, Jesus apresenta a mesma cena na negativa: «Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um homem sem juízo, que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e ela desabou, e grande foi a sua ruína».
Construir a própria casa sobre areia quer dizer voltar a pôr as próprias esperanças e certezas em coisas instáveis e aleatórias que não se subtraem ao tempo e à sorte. Tais são: o dinheiro, o êxito, a própria saúde. A experiência coloca isso diante dos nossos olhos cada dia: é muito pouco o que basta – um pequeno coágulo no sangue, dizia o filósofo Pascal – para que tudo se derrube.
Construir a casa sobre a rocha quer dizer, ao contrário, fundar a própria vida e as próprias esperanças naquilo que «os ladrões não podem roubar nem a traça desfazer», sobre o que não passa.
«Os céus e a terra passarão – dizia Jesus –, mas minhas palavras não passarão».
Construir a casa na rocha significa, muito simplesmente, construir em Deus. Ele é a rocha. Rocha é um dos símbolos preferidos da Bíblia para falar de Deus: «Nosso Deus é uma rocha eterna» (Is 26, 4); «Ele é a rocha, perfeita é sua obra» (Dt 32, 4).
A casa construída sobre a rocha já existe; trata-se de entrar nela! É a Igreja.
Não, evidentemente, a que está feita à base de tijolos, mas a formada pelas «pedras vivas» que são os crentes, edificados na «pedra angular» que é Cristo Jesus. A casa na rocha é aquela da qual Jesus falava quando dizia a Simão: «Tu és Pedro e sobre esta pedra (literalmente ‘rocha’)» edificarei a minha Igreja (Mt 16, 18).
Fundar a própria vida sobre a rocha significa, portanto, viver na Igreja; não ficar fora só apontando o dedo contra as incoerências e os defeitos dos homens de Igreja.
Do dilúvio universal salvaram-se só poucas almas, as que haviam entrado com Noé na arca; do dilúvio do tempo, que tudo engole, só se salvam os que entram na arca nova que é a Igreja (cf. 1 P 3, 20). Isso não quer dizer que todos os que estão fora dela não se salvam; existe uma pertença à Igreja de outro tipo, «conhecida só a Deus», diz o Concílio Vaticano II com relação a quem, sem conhecer a Cristo, actua segundo os ditados da própria consciência.
O tema da palavra de Deus, que está sobre o que se celebrará em Outubro o próximo Sínodo sugere-me uma aplicação prática. Deus serviu-se da palavra para comunicar-nos a vida e revelar-nos a verdade. Os seres humanos usam com frequência a palavra para dar morte e esconder a verdade!
Na introdução a seu famoso Dizionario delle opere e dei personaggi, Valentino Bompiani relata o seguinte episódio. Em julho de 1938 aconteceu em Berlim o congresso internacional dos editores, do qual ele também participou. A guerra se palpava já no ar e o governo nazi mostrava-se mestre na manipulação das palavras com fins de propaganda. No penúltimo dia, Goebbels, que era ministro de Propaganda do Terceiro Reich, convidou os congressistas para a sala do Parlamento. Pediu aos delegados dos distintos países uma palavra de saudação. Quando chegou a vez de um editor sueco, este subiu ao estrado e com voz grave pronunciou estas palavras: «Senhor Deus, devo pronunciar um discurso em alemão. Careço de vocabulário e de gramática, e sou um pobre homem perdido no género dos homens. Não sei se a amizade é feminino ou se o ódio é masculino, ou se o horror, a lealdade e a paz são neutros. Assim, Senhor Deus, recobra as palavras e deixa-nos nossa humanidade. Talvez consigamos compreender-nos e salvar-nos». Estourou um aplauso, enquanto Goebbels, que havia captado a alusão, saía furioso da sala.
Um imperador chinês, interrogado sobre o que era o mais urgente para melhorar o mundo, respondeu sem duvidar: reformar as palavras! Queria dizer: devolver às palavras seu verdadeiro significado. Tinha razão. Há palavras que, pouco a pouco, foram esvaziadas completamente de seu significado original e cumuladas de um significado diametralmente oposto. Seu uso não pode mais que resultar prejudicial. É como pôr em uma garrafa de arsénico a etiqueta «digestivo efervescente»: alguém se envenenará. Os Estados dotaram-se de leis severíssimas contra os falsificadores de moedas, mas de nenhuma contra a falsificação das palavras.
A nenhuma palavra ocorreu o mesmo que à pobre palavra «amor». Um homem abusa de uma mulher e se justifica dizendo que o fez por amor. A expressão «fazer por amor» frequentemente representa o acto mais vulgar de egoísmo, no qual cada um pensa em sua satisfação, ignorando totalmente o outro e reduzindo-o a simples objecto.
A reflexão sobre a palavra de Deus pode-nos ajudar, como se vê, também a reformar e resgatar do vazio a palavra dos homens.

Retirado da ZENIT

29 maio 2008

Ao partir do Pão

Andas triste, perturbado, descrente, desanimado, com vontade de desistir?
Repara então nestas palavras:
Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém;
e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. Lc 24,13-17
Vês, também eles caminhavam na vida entristecidos, de tal modo que nem conseguiam reconhecer Aquele que deles se aproximava.
Mas continua a ler estas palavras:
Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;
como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. Lc 24,19-21
Repara que estavam à espera de alguém que fosse resolver o problema das suas vidas, das suas dificuldades, das suas provações, do já e agora.
Queriam uma vitória sobre os outros, queriam não ter que se preocupar mais.
Pensavam apenas nesta sua vida do mundo, e esperavam alguém que fosse um chefe imbatível, que dominasse, que tudo vencesse pela força e pelo poder.
Ainda tinham ficado perturbados, mas já não conseguiam acreditar.
Repara:
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» Lc 24,22-24
Pois foi, ouviram o que as mulheres contaram como se fosse uma história qualquer, mas que não tinha muito crédito, porque ninguém tinha visto com os olhos aquele que eles esperavam.
Por isso, e ao verem que esse alguém que imaginavam de facto tinha morrido, e mais, que já tinham passado três dias e nada acontecia, não esperaram mais, tinham desistido e voltavam para a sua vida anterior.
Vês tu, que ao colocares a tua esperança nas coisas do mundo, nas coisas palpáveis, nas seguranças deste mundo, quando elas te falham ficas assim, triste, perturbado, descrente, desanimado e com vontade de desistir.
Mas, continua a ler as palavras deste episódio:
E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. Lc 24,27
Olha que mesmo tristes, perturbados, descrentes, não mandaram o homem embora e foram ouvindo o que ele lhes ia dizendo.
Afinal parecia que os seus corações ainda tinham por ali uma réstia de esperança, uma vontade de mudar.
De tal modo que, passou-se o seguinte:
Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. Lc 24,28-29
Não o deixaram ir embora!
Aquele homem tinha alguma coisa especial!
A sua companhia era boa e fazia nascer nos corações qualquer coisa de muito bom.
Se lhe pediram para ficar com eles é porque a expectativa era grande.
Ora repara:
E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Lc 24,30-31
Ao partir do Pão!
Reconheceram-No ao partir do Pão!
Vês como é importante a Eucaristia!
Vês que é na Eucaristia e em Eucaristia que podemos reconhecer Aquele que dá a vida, a vida em abundância!
Vês que é na Eucaristia e em Eucaristia que podemos reconhecer Aquele que dá a paz, não a paz que dá o mundo, mas a paz interior que se projecta na eternidade!
Vês que se O reconheces na Eucaristia não precisas de O ver com os olhos do corpo!
E agora medita bem no que aconteceu a seguir:
Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»
Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!». E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Lc 24,32-35
Foi-se a tristeza, a perturbação, o desânimo, a descrença!
Perceberam a alegria que é conhecer o Senhor!
Correm agora para a vida nova sem hesitações, e são eles que confirmam já sem dúvidas, sem medo, que o Senhor ressuscitou e se lhes deu a conhecer!
E não te arde o coração também, quando percebes que de mansinho, sem imposições Ele se te vai dando a conhecer pela Palavra até te levar ao reconhecimento sem dúvidas na Eucaristia, ao partir do Pão?
Onde está agora a tristeza, o desânimo, a descrença, se reconheces que o que Ele te dá não cabe neste mundo, pois vai muito para além dele?
Levanta-te e corre, corre para a vida nova que Ele te oferece e conta a todos o que te aconteceu, confirma a todos que Ele ressuscitou, afirma a todos, que todos O podem reconhecer ao partir do Pão, na Eucaristia.
Ah, e não te esqueças que é para todos, porque Ele quer ser companheiro de viagem de todos, de todos os que abrem o coração à Sua Palavra, ao Seu Amor.

21 março 2008

Na Paixão e na Cruz nasce a Igreja


O grão de trigo desceu à terra e morto que foi, dá agora origem a uma nova planta.
Uma planta cheia de vida, cheia de frutos, de sementes, que irão morrer também para originarem novas plantas, que juntas na grande seara, vão dando fruto e semente, ocupando a terra que lhes foi dada.
Ali na Paixão e Morte de Jesus Cristo, o Messias Salvador, nascia a Igreja, grande seara para toda a terra.
Naquela última ceia o Senhor, ao lavar os pés dos Seus discípulos, mostra à Igreja a sua verdadeira missão: ensinar e colocar-se ao serviço de todos. Jo 13,1-20
Esta Igreja estava ao lado dEle, com Ele, em todos aqueles momentos.
Estavam os consagrados, os chamados a servirem na entrega total das suas vidas, o Papa, os Bispos, os Sacerdotes, os Diáconos, os Religiosos e Religiosas, representados nos Apóstolos que com Ele comiam à mesa. Lc 22,14-20
Estavam aqueles que O negam, mas depois se arrependem e acolhem o Seu perdão, representados em Pedro, naquela noite. Lc 26,69-75
Estavam aqueles que trabalham com o suor do seu rosto, representados naquele Simão de Cirene, chamado a ajudar a levar a Cruz, atrás de Jesus. Mc 15,21
Estavam as mulheres, as mães, e nelas as famílias, primeira catequese e encontro com Jesus Cristo, representadas por aquelas mulheres fiéis, (a Sua própria Mãe, que nos deu como Mãe), que nunca O abandonaram. Jo 19,25-27
Estavam os ladrões, os criminosos, os marginais, que abrindo o seu coração a Jesus Cristo, encontram a salvação, representados naquele ladrão crucificado com Ele. Lc 23,39-43
Estavam os marginalizados, os condenados pela sociedade, os proscritos, mas que reconhecem em Cristo o perdão e a salvação, representados por Maria Madalena, junto à Cruz. Jo 19,25
Estavam os que não acreditam, os que O repudiam, os que O condenam, mas que perante a experiência da Sua entrega de amor, se arrependem e O reconhecem, representados no centurião e na multidão que regressa a/à casa. Lc 23 47-46
Estavam os ricos, aqueles que por graça de Deus passam pelo buraco da agulha, representados por José de Arimateia, que Lhe entrega o sepulcro novo. Lc 23, 50-53
Estavam os homens de cultura, de ciência, os intelectuais, que descobrem nEle a Fé e a Razão, representados por Nicodemos, que oferece o perfume contra a corrupção. Jo 19,39
Estavas tu e estava eu, que nos curvamos perante a dimensão infinita de amor do nosso Deus, que se entrega por nós ao Pai, para nos libertar da lei do pecado pela força do Espírito Santo.
O nosso coração entristece-se, emudece, comove-se, mas deixa crescer nele um grito de alegria, que unido a toda a Igreja, vai espantar todo o universo:
Jesus Cristo, o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Ressuscitou e está vivo no meio de nós e em nós!
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Santa Páscoa para todos!

09 fevereiro 2008

Evangelho do I Domingo da Quaresma


Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo, I da Quaresma.



Mateus 4, 1-11
O demónio, o satanismo e outros fenómenos relacionados são de grande actualidade e inquietam frequentemente a nossa sociedade. Nosso mundo tecnológico e industrializado está repletos de magos, bruxos urbanos, ocultismo, espiritismo, escrutinadores de horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos, assim como de autênticas seitas satânicas. Expulso pela porta, o diabo entrou pela janela. Ou seja, expulso pela fé, voltou a entrar com a superstição.
O episódio das tentações de Jesus no deserto, que se lê no primeiro domingo da Quaresma, ajuda-nos a oferecer um pouco de clareza a este tema. Antes de tudo, existe demónio? Isto é, a palavra “demónio” indica de verdade alguma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é simplesmente um símbolo, um modo de falar que indica a soma do mal moral do mundo, o inconsciente colectivo, a alienação colectiva e coisas pelo estilo? Muitos, entre os intelectuais, não crêem no demónio segundo o primeiro sentido. Mas se deve observar que grandes escritores e pensadores, como Goethe ou Dostoievski, levaram muito a sério a existência de satanás. Baudelaire, que não era certamente trigo limpo, disse que «a maior astúcia do demónio é fazer crer ele que não existe».
A principal prova da existência do demónio nos evangelhos não está nos numerosos episódios de libertação de possessos, porque na interpretação destes fatos pode haver influência de crenças antigas sobre a origem de certas doenças. Jesus tentado no deserto pelo demónio: esta é a prova. Provas são também os muitos santos que lutaram em vida contar o príncipe das trevas. Não são Quixotes que brigam contra moinhos de vento. Ao contrário: foram homens e mulheres concretos e de psicologia saudável.
Se muitos acham absurdo crer no demónio, é porque se baseiam em livros, passam a vida em bibliotecas ou no escritório, enquanto o demónio não se interessa por literatura, mas pelas pessoas, especialmente os santos. O que pode saber sobre satanás quem jamais teve nada a ver com sua realidade, mas só com sua ideia, isto é, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre satanás? Esses tratam habitualmente deste tema com grande segurança e superioridade, liquidando tudo como «obscurantismo medieval». Mas trata-se de uma falsa segurança. Como se alguém deixasse de temer o leão aduzindo como prova o fato de que viu muitas vezes sua imagem e jamais lhe deu medo. Por outro lado, é totalmente normal e coerente que não creia no diabo quem não crê em Deus. Seria até trágico se alguém que não crê em Deus acreditasse no diabo!
O mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos não é, no entanto, que o demónio existe, mas que Cristo venceu o demónio. Cristo e o demónio não são para os cristãos dois princípios iguais e contrários, como em certas religiões dualistas. Jesus é o único Senhor; satanás não é senão uma criatura que «se perdeu». Se lhe concede poder sobre os homens, é para que estes tenham a possibilidade de fazer livremente uma escolha e também para que «não se ensoberbeçam» (2 Co 12, 7), crendo-se auto-suficientes e sem necessidade de redentor algum. «Que loucura a do velho satanás – diz um canto espiritual negro. Atirou para destruir minha alma, mas errou o tiro e destruiu por outro lado o meu pecado.»
Com Cristo não temos nada a temer. Nada nem ninguém pode fazer-nos dano se nós não quisermos. Satanás – dizia um antigo padre da Igreja –, após a vinda de Cristo, é como um cão atado na árvore; pode latir e balançar quanto quiser; se não nos aproximamos, não pode morder. Jesus no deserto se libertou de satanás para libertar-nos de satanás! É a gozosa notícia com a qual iniciamos nosso caminho quaresmal para a Páscoa.


Retirado da ZENIT

30 janeiro 2008

Uma Voz No Deserto


Mateus 3, 1-12

O coração da pregação de João Batista está contido nessa frase de Isaías, que repete a seus contemporâneos com grande força: «Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!». Isaías, para dizer a verdade, expressava: «Uma voz clama: no deserto, abri caminho ao Senhor» (Is 40, 3). Não é, portanto, uma voz no deserto, mas um caminho no deserto. Os evangelistas, aplicando o texto ao Batista que pregava no deserto da Judeia, modificaram a pontuação, mas sem mudar o sentido da mensagem.

Jerusalém era uma cidade rodeada pelo deserto: ao Oriente, os caminhos de acesso, enquanto se traçavam, facilmente desapareciam pela areia que o vento move, enquanto ao Ocidente se perdiam entre as asperezas do terreno para o mar. Quando uma comitiva ou um personagem importante devia chegar à cidade, era necessário sair e caminhar pelo deserto para abrir uma via menos provisória; cortavam as sarças, aplainavam os obstáculos, reparavam a ponte ou uma passagem. Assim se fazia, por exemplo, por ocasião da Páscoa, para acolher os peregrinos que chegavam da Diáspora. Neste dado, de fato, inspira-se João Batista. Está a ponto de chegar, clama, aquele que está acima de todos, «aquele que deve vir», o esperado os povos: é necessário traçar um caminho no deserto para que possa chegar.

Mas eis aqui o salto da metáfora à realidade: este caminho não se traça no terreno, mas no coração de cada homem: não se traça no deserto, mas na própria vida. Para fazê-lo, não é necessário pôr-se materialmente ao trabalho, mas converter-se: «Endireitai os caminhos do Senhor»: este mandato pressupõe uma amarga realidade: o homem é como uma cidade invadida pelo deserto; está fechado em si mesmo, em seu egoísmo; é como um castelo com um fosso ao redor e as pontes levantadas. Pior: o homem complicou seus caminhos com o pecado e aí permaneceu, seduzido, como em um labirinto. Isaías e João Batista falam metaforicamente de precipícios, de montes, de passagens tortuosas, de lugares impraticáveis. Basta chamar estas coisas por seus verdadeiros nomes, que são orgulho, humilhações, violências, cobiças, mentiras, hipocrisia, imundices, superficialidades, embriaguez de todo tipo (pode-se estar ébrio não só de vinho ou de drogas, mas também da própria beleza, da própria inteligência, de si mesmo, que é a pior embriaguez!). Então se percebe imediatamente que o discurso também é para nós, é para cada homem que nesta situação deseja e espera a salvação de Deus.

Endireitar um caminho para o Senhor ,portanto, tem um significado concretíssimo: significa empreender a reforma da nossa vida, converter-se. Em sentido moral, o que se deve aplanar e os obstáculos que se deve retirar são o orgulho – que leva a ser impiedoso, sem amor para com os demais – , a injustiça – que engana o próximo, talvez abduzindo pretextos de compensação para calar a consciência –, por não falar de rancores, vinganças, traições no amor. São vales cheios de preguiça, incapacidade de impor-se um mínimo de esforço, todo pecado de omissão.

A palavra de Deus jamais nos esmaga sob um monte de deveres sem dar-nos ao mesmo tempo a segurança de que Ele nos dá o que nos manda fazer. Deus, diz [o profeta] Baruc, «dispôs que sejam abaixados os montes e as colinas, e enchidos os vales para que se uma o solo, para que Israel caminhe com segurança sob a glória divina» [Ba 5, 7, N. da R.] Deus abaixa, Deus enche, Deus traça o caminho; é tarefa nossa corresponder à sua acção, recordando que «quem nos criou sem nós, não nos salva sem nós».


Comentário publicado na ZENIT do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia.

24 janeiro 2008

Imaculada Conceição


Sem pecado

Com o dogma da Imaculada Conceição, a Igreja Católica afirma que Maria, por singular privilégio de Deus e em vista dos méritos da morte de Cristo, foi preservada de contrair a mancha do pecado original e veio à existência já totalmente santa. Quatro anos depois da definição do dogma pelo Papa Pio IX, esta verdade foi confirmada pela própria Virgem em Lourdes, em uma das aparições a Bernadete, com as palavras: «Eu sou a Imaculada Conceição».

A festa da Imaculada recorda à humanidade que existe uma só coisa que contamina verdadeiramente o homem, e é o pecado. Uma mensagem urgente para ser proposta. O mundo perdeu o sentido do pecado. Brinca-se como se fosse o mais inocente do mundo. Alinha com a idéia de pecado seus produtos e seus espetáculos para torná-los mais atrativos. Refere-se ao pecado, inclusive aos mais graves, com diminutivos: pecadinho, viciozinho. A expressão «pecado original» se utiliza na linguagem publicitária para indicar algo bem diferente da Bíblia: um pecado que dá um toque de originalidade a quem o comete!

O mundo tem medo de tudo, menos do pecado. Teme a contaminação atmosférica, as penosas doenças do corpo, a guerra atômica, atualmente o terrorismo, mas não lhe dá medo a guerra a Deus, que é o Eterno, o Onipotente, o Amor, enquanto Jesus diz que não se tema aos que matam o corpo, mas só a quem, depois de ter matado, tem o poder de lançar à geena (cf. Lc 12, 4-5).

Esta situação «ambiental» exerce uma tremenda influência até nos crentes que, contudo, querem viver segundo o Evangelho. Produz neles um adormecimento da consciência, uma espécie de anestesia espiritual. Existe uma narcose por pecado. O povo cristão já não reconhece seu verdadeiro inimigo, o senhor que o mantém escravizado, só porque se trata de uma escravidão dourada. Muitos que falam de pecado têm dele uma idéia completamente inadequada. O pecado se despersonaliza e se projeta unicamente sobre as estruturas; acaba-se por identificar o pecado com a postura dos próprios adversários políticos ou ideológicos. Uma pesquisa sobre o que as pessoas pensam que é o pecado daria resultados que provavelmente nos aterrorizariam.

Ao invés de livrar-se do pecado, todo o empenho se concentra hoje em livrar-se do peso de consciência relativo ao pecado; em vez de lutar contra o pecado, luta-se contra a idéia do pecado, substituindo-a por aquela – bastante diferente – do «sentimento de culpa». Faz-se o que em qualquer outro campo se considera o pior de tudo, ou seja, negar o problema ao invés de resolvê-lo, voltar a jogar e sepultar o mal no inconsciente em vez de extrai-lo. Como quem crê que elimina a morte suprimindo o pensamento sobre a morte, ou como quem se preocupa por baixar a febre sem curar a doença, da qual aquela é só um providencial sintoma. São João dizia que se afirmamos estar sem pecado, enganamos a nós mesmos e fazemos de Deus um mentiroso (cf. 1 João 1, 8-10); Deus, de fato, diz o contrário: que pecamos. A Escritura diz que Cristo «morreu por nossos pecados» (1 Cor 15, 3). Suprima o pecado e você torna vã a própria redenção de Cristo, destrói o significado de sua morte. Cristo teria lutado contra simples moinhos de ventos, teria derramado seu sangue por nada.

Mas o dogma da Imaculada nos diz também algo sumamente positivo: que Deus é mais forte que o pecado e que onde abunda o pecado superabunda a graça (cf. Rom 5, 20). Maria é o sinal e a garantia disso. A Igreja inteira, detrás d’Ela, está chamada a ser «resplandecente, sem que tenha mancha, nem rugas nem coisa parecida, mas que seja santa e imaculada» (Ef 5, 27). Um texto do Concílio Vaticano II diz: «Enquanto a Igreja na Santíssima Virgem já chegou à perfeição, pela qual se apresenta sem mancha nem ruga, os fiéis, no entanto, ainda que se esforçam por crescer na santidade, vencendo o pecado; e por isso dirigem seu olhar a Maria, que brilha ante toda a comunidade dos eleitos, como modelo de virtudes» (Lumen gentium, n. 65].

Comentário publicado na ZENIT do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia