18 julho 2008

Ano Paulino, Uma Proposta Pastoral

Introdução

Paulo pode guiar-nos em todos os caminhos de escuta da Palavra: na celebração da Páscoa; na evangelização, como primeiro anúncio de Jesus Cristo; no aprofundamento da fé, em processo catequético; na fidelidade a Deus, vivendo segundo as exigências da Palavra; no fortalecimento da esperança, pois toda a Palavra de Deus nos abre para o horizonte da eternidade.

2.

Paulo teve desilusões e sucessos e pode inspirar a Igreja actual a discernir, nos anseios dos homens e mulheres do nosso tempo, aberturas à Palavra de Deus. Ela é chamada a ler, nas buscas e inquietações humanas, os “sinais dos tempos”, indicativos da necessidade e do desejo da salvação (cf. G.S. nn. 4 e 11).

3.

Esta fidelidade de Paulo a Jesus Cristo sugerir-nos-á caminhos de conversão para todos os evangelizadores, também eles chamados a deixarem-se possuir por Jesus Cristo para poderem anunciar o Seu Evangelho.

4.

O Ano Paulino pode ajudar-nos a sistematizar essa pastoral específica, porque Paulo foi o maior evangelizador de todos os tempos. Ele continua a ser exemplo inspirador do ardor da evangelização e da natureza específica do anúncio querigmático.

Um novo ardor

Esta paixão por Jesus Cristo e a certeza de que na Sua Cruz se decidiu o novo destino humano, geram em Paulo a urgência da evangelização, em que ele se sente como cooperador de Deus (cf. 1Co 3,9). “Ai de mim, se eu não evangelizar!” (1Co 9,16). A evangelização é o seu futuro, o sentido do tempo que lhe resta para viver, o que o leva a relativizar o seu passado (cf. Fil 3,13).

O anúncio querigmático

Neste Ano Paulino, temos de pressentir por que caminhos nos conduziria Paulo, se partilhasse hoje, connosco, a missão evangelizadora da Igreja.

A exigência do percurso catequético

O Ano Paulino oferece-nos estímulo para aperfeiçoar a nossa catequese e conceber a acção pastoral como um meio de aprofundar um processo contínuo de iniciação cristã.

Prioridade da experiência comunitária da fé

O Ano Paulino oferece-nos ocasião de uma reflexão pastoral sobre a verdade da Igreja e a maneira de construir a unidade da comunhão, na imensa variedade de carismas que voltaram a enriquecer a Igreja do nosso tempo. As estruturas da CEP são chamadas a estar mais atentas a esta realidade que, se constitui uma riqueza da Igreja, é também o seu principal desafio na construção da unidade.

Corresponsabilidade na missão

Podemos aprender com Paulo o fundamento da verdadeira corresponsabilidade dos cristãos na missão da Igreja, aspecto de grande actualidade quando o Concílio tornou claro que a Igreja é o verdadeiro sujeito da missão e que todos os baptizados são corresponsáveis, segundo a sua graça própria ou o ministério que lhes foi entregue. A importância e especificidade do ministério ordenado não podem significar a clericalização da Igreja.

Propostas de meios pastorais para a vivência do Ano Paulino

8. Como acabámos de ver, o Ano Paulino oferece uma ocasião riquíssima para o nosso serviço às Igrejas. Cada uma encontrará os meios que considere os mais adaptados para o viver e celebrar. No entanto a Conferência Episcopal, órgão ao serviço da unidade de todas as Igrejas de Portugal, propõe a todas os seguintes instrumentos pastorais:

8.1. “Um ano a caminhar com São Paulo”. Trata-se de um itinerário catequético, tendo Paulo como guia, que além do conhecimento mais profundo do Apóstolo, nos fará percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho cristão. Apresenta um tema para cada semana do ano e destina-se, além das pessoas individualmente, às famílias, aos grupos paroquiais, à pastoral juvenil, aos Movimentos.

8.2. A vivência da Liturgia. Os textos de São Paulo são dos que mais continuamente são lidos na Liturgia. Propomos, durante este ano, uma valorização destes textos, sobretudo nas homilias, não esquecendo que a Liturgia é a grande catequese da Igreja. A Comissão Nacional de Liturgia preparará elementos que ajudem os pastores das comunidades a realizar este objectivo.

8.3. Estudos sobre São Paulo. A Faculdade de Teologia, nos seus diversos Centros e Escolas filiadas, oferecerá ao Povo de Deus, sessões de estudos paulinos.

8.4. Valorização de outras ofertas, particularmente a apresentada pela família Paulista (Padres, Irmãs paulistas e Pias discípulas).

8.5. A festa da conversão de São Paulo, no próximo ano, será celebrada ao Domingo. Será organizada uma grande celebração nacional nesse dia, na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, centrada num aspecto englobante da doutrina de Paulo.

9. Ao celebrar o Ano Paulino, queremos ter o Apóstolo Paulo como guia inspirador da nossa missão de pastores, de todos os evangelizadores, de quantos, neste mundo secularizado, querem viver connosco a aventura da Igreja.

Fátima, 6 de Maio de 2008
.
Conferência Episcopal Portuguesa
.
.

12 julho 2008

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos...»

Como a vida lhe pesava nos ombros!
Como tudo lhe parecia perdido, os anos que tinha vivido, a entrega que tinha feito àquela família, o empenho que nela tinha colocado.
Tudo se desmoronava como um castelo de cartas, agora que, depois de anos e anos de violência doméstica tinha decidido pôr fim àquela união!
O que mais lhe custava ao ter saído de casa por vontade própria era pensar que não se podia aproximar mais daquEle que tinha sido e era a sua força, a sua alegria, no meio de tanta incerteza, de tanta dor, de tanta revolta.
Tinham-lhe dito que se saísse de casa, se abandonasse aquela união, aquele casamento, nunca mais poderia aproximar-se da Comunhão, da Eucaristia, e isso tinha-a levado sempre a dar cada vez mais de si, a perdoar cada vez mais as afrontas, as violências, mas agora já não podia mais porque a sua vida estava em risco e com ela a dos seus filhos.
Não conseguia imaginar a sua vida sem a Comunhão, sem a Eucaristia, sem sentir e viver a presença constante do amor de Deus na sua vida.
Não podia ser assim!
Ela sentia que não podia ser assim!
Diziam-lhe que não, que não havia possibilidades, que era Doutrina da Igreja, que a Igreja não aceitava as pessoas que “abandonavam” os seus casamentos, mas ela, embora por vezes revoltada com aquela Igreja, sentia que algo estava mal, que verdadeiramente não era assim.
Deus não podia querer que ela colocasse a sua vida e a dos seus filhos em risco, perante a violência que aquele que ela tinha escolhido para seu marido e pai dos seus filhos, vinha exercendo diariamente sobre ela e sobre eles.
Ela sabia que tinha feito tudo, tudo o que lhe era humanamente possível, para resolver aquela situação.
Tinha perdoado, tinha esquecido, tinha calado, tinha rezado, (se tinha rezado, todos os dias fervorosamente), tinha pedido ajuda para ele e para ela e nada, nada mudava, a violência continuava e cada vez mais perigosa, (parecia até que a sua maneira de estar, de perdoar, ainda o levava a fazer pior), de tal modo que sentia que a sua vida agora estava verdadeiramente em risco e que portanto tinha de tomar a decisão que acabou por tomar.
Mas não acreditava, apesar de tudo o que lhe diziam, que a Igreja não a acolhesse no seu seio, não acolhesse aqueles que sofrem.
Decidiu ir falar com alguém que realmente lhe dissesse a verdade da Doutrina, a verdade do que a Igreja dizia sobre o problema que ela vivia e sobre o qual tinha tomado aquela decisão tão amarga e difícil.
Procurou um sacerdote, alguém da sua confiança, aquele que tantas vezes a tinha acolhido e com ela tinha vivido esses momentos tão difíceis, e abriu-lhe o coração.
Queria saber, como tantos lhe diziam, se já não podia ir à igreja, se já não podia participar da Eucaristia, se já não podia confessar-se e receber a Comunhão.
Queria saber enfim, se aos olhos da Igreja ela era uma proscrita, uma não desejada, uma que já não era aceite.
O sacerdote, mais uma vez, ouviu-a em silêncio, pesou todas as suas palavras, todas as suas dores, todas as suas razões, todos os seus motivos e por fim disse-lhe:
- Conheço bem o teu caso, o teu problema e a amargura, a dor, com que tomaste a decisão de sair de casa com os teus filhos.
Sei bem que fizeste tudo o que estava ao teu alcance para evitar esta decisão, que chegaste até a humilhar-te, para tentar salvar o teu casamento.
Quero dizer-te em primeiro lugar que a Igreja nunca afastou ninguém do seu seio, pelo contrário tenta sempre acolher aqueles que sofrem, aqueles que se sentem sozinhos, aqueles que procuram em Deus a realização plena das suas vidas.
Muitos membros da Igreja não entendem assim, (não os podemos condenar, porque com certeza não têm o conhecimento suficiente do Mistério que é a Igreja), e por isso julgam o que não deviam julgar e tomam como certas, opiniões que afinal são só suas.
Mas não, a Igreja não condena o teu acto, porque o tomaste depois de esgotadas todas as hipóteses de solução, depois de teres tentado até ao limite das tuas forças salvar o Matrimónio que um dia contraíste livremente perante Deus, e que por razões várias acabou por se transformar numa prisão perigosa para ti e para os teus filhos, deixando de ser a realização plena do amor entre homem e mulher que Deus quis e para o qual os criou.
Podes, digo-te eu, participar da Eucaristia, comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, confessar-te sempre que precisares e o desejares, apenas com a condição de te manteres casta, sem te unires a outro homem, a não ser que, por razões ponderosas que eu não posso analisar aqui, o Tribunal Eclesiástico analisando as condições em que foi celebrado e vivido o teu Matrimónio, a teu pedido, possa afirmar que o Sacramento do Matrimónio não aconteceu verdadeiramente, e decretar a sua nulidade.
Mas para que não tenhas dúvidas no que te afirmo aqui te leio os cânones do Código de Direito Canónico que confirmam as minhas palavras:
«Cân 1151 – Os conjugues têm o dever e o direito de manter a convivência conjugal, a não ser que uma causa legitima os escuse.
Cân 1153 - § 1. Se um dos conjugues provocar grave perigo da alma ou do corpo para o outro ou para os filhos, ou de algum modo tornar a vida comum demasiado dura, proporciona ao outro causa legítima de separação, quer por decreto do Ordinário do lugar, quer também, se houver perigo na demora, por autoridade própria.
§ 2. Em todos os casos, cessando a causa da separação, deve ser restaurada a vida conjugal em comum, a não ser que a autoridade eclesiástica determine outra coisa.»
Claro que para teres a certeza da bondade da tua decisão, mesmo depois de tomada, deves recorrer à ajuda no discernimento de um Sacerdote, ou até mesmo do teu Bispo, que te ajudará a dares os passos certos para conformares a tua decisão com a Doutrina da Igreja.
Mas para além destas instruções que te informo, há muito mais documentos da Igreja que atestam a possibilidade dos separados, por razões como a tua e outras mais, poderem continuar a receber os Sacramentos da Igreja, e entre os quais te cito, a Exortação Apostólica “Familiares consortio”, de João Paulo II, que no ponto 83 diz:
«Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais, etc. podem conduzir dolorosamente o matrimónio válido a uma fractura muitas vezes irreparável. Obviamente que a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis.
A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão própria do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente a vida conjugal anterior.
Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária ainda, da parte desta, uma acção contínua de amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos.»
A Igreja não te condena, portanto, mas ao contrário quer acolher-te, quer ajudar-te a viveres a tua situação dolorosa e na comunhão em Igreja, em comunhão com Cristo, encontrares razões de esperança, de paz e até de alegria.
Lembra-te que é Jesus Cristo Quem nos diz:
«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos.
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito.
Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.» Mt 11,28-30

Olhou para o sacerdote agradecida e disse-lhe com a voz embargada:
Obrigado Padre, porque me fez sentir acolhida e amada pela Igreja que eu amo.
Sei e percebo que é muito difícil o que a Igreja me pede, mas acredito também que na comunhão e na entreajuda será possível levar a vida digna que sempre quis viver e as circunstâncias não permitiram.
Acredito também que se cair, porque sou pecadora, o perdão de Deus é muito maior que o meu pecado e na Confissão reencontrarei a graça de Deus na minha vida e que ela me dará forças para viver as provações que vou ter de enfrentar.
Mas tenho confiança, tenho esperança, que o amor de Deus me fará sentir que a minha vida tem sentido e é querida por Deus e amada na Igreja e é isso mesmo que quero transmitir aos meus filhos profundamente magoados no seu íntimo.
De pé, o sacerdote abençoou-a, e ela saiu de cabeça erguida da igreja, com a paz no coração, a esperança no olhar, sabendo-se filha de Deus e pedra viva da Igreja.
.
Nota:
Esta é uma história inventada, mas que, para além obviamente de uma certa bondade na descrição do problema, sua solução e aceitação, quer chamar a atenção para o facto de que aquilo que se diz e que muitas vezes se toma como certo em relação à Igreja, nem sempre corresponde à realidade.