18 março 2009

O Perdão - Setenta vezes sete.

Mateus 18,21-35

Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino do Céu é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo ao princípio, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os filhos e todos os seus bens, a fim de pagar a dívida. O servo lançou-se, então, aos seus pés, dizendo: 'Concede-me um prazo e tudo te pagarei.' Levado pela compaixão, o senhor daquele servo mandou-o em liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: 'Paga o que me deves!' O seu companheiro caiu a seus pés, suplicando: 'Concede-me um prazo que eu te pagarei.' Mas ele não concordou e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto lhe devia. Ao verem o que tinha acontecido, os outros companheiros, contristados, foram contá-lo ao seu senhor. O senhor mandou-o, então, chamar e disse-lhe: 'Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo suplicaste; não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?' E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração.»

Jesus Cristo fala-nos do perdão.
Utiliza este modo de o dizer, que não devemos perdoar sete vezes, mas sim setenta vezes sete, como forma de nos ensinar que o perdão não deve ter limite, que não se pode medir o número de vezes que se perdoa, que não se esgota nas poucas ou muitas vezes que perdoamos.
Devemos lembramo-nos que muitas vezes temos frases como: Já te perdoei muitas vezes agora chega! Ou: Já lhe perdoei tantas vezes e não aprende, por isso não vale a pena continuar a perdoar.
A verdade é que o Senhor nos diz que devemos perdoar sempre, o que não significa que não devamos correctamente, com amor, chamar a atenção daqueles que nos ferem e magoam com as suas ofensas, sobretudo se são repetidas e sem emenda.


Mas não nos compete a nós julgar, nem sequer decidirmos quantas vezes são demais, porque também nós pecamos, tantas e tantas vezes repetidamente, e o Senhor sempre, sempre nos perdoa.
Não podemos nós saber quão forte é a tentação que leva os nossos irmãos e irmãs a ofenderem-nos, a magoarem-nos, mas sabemos muito bem que há tentações nas nossas vidas em que caímos repetidas vezes, por isso, quem somos nós para julgar os outros se nós próprios também não somos perfeitos?
Mas há outros pensamentos que traduzimos muitas vezes em frases e que precisamos de perceber até que ponto é que não são um verdadeiro perdão, ou que são apenas uma “imitação” de perdão.
Por exemplo, quando dizemos, que perdoar, perdoamos, mas não esquecemos.
Este não esquecer traz normalmente consigo uma atitude não de perdão, mas sim de reserva, perante aquele ou aquela que nos fez mal.
No fundo estamos a dizer que aquela ofensa ficará sempre como uma mágoa em nós e que provavelmente numa outra oportunidade somos capazes de atirar à cara daquela pessoa a ofensa que nos fez.
E isso não é perdoar!
Como perdoar também não é esquecer!
Deus nos deu uma memória e essa memória não pode ser apagada por nossa vontade.
A questão não está em esquecer a ofensa, a questão está em que a memória dessa ofensa não nos magoe, não nos fira, porque nós já perdoamos a quem nos ofendeu e portanto fizemos as pazes dentro de nós.
E para isso é preciso a nossa vontade, mas também é preciso muita oração.
O acto de perdoar, é um acto da nossa vontade, iluminado pela graça de Deus.


Muitas vezes ao princípio até nos parece que não estamos a ser sinceros, ou seja, dissemos que perdoámos, mas cá dentro de nós parece que não, que ainda temos algum ressentimento para com quem nos ofendeu.
Mas isso é normal, porque nós somos humanos e imperfeitos e há ofensas mais fáceis de perdoar e outras mais difíceis, porque há ofensas que magoam um pouco, mas há outras que magoam muito.
Então é preciso rezar com muita perseverança por aqueles que nos ofenderam, e que pela graça de Deus o perdão seja presença constante em nós.
É o Espírito Santo que, à medida que vamos rezando pelos que nos ofendem, vai colocando a paz nas nossas vidas, e nos vai fazendo compreender que aqueles que nos ofenderam são nossos irmãos que fraquejaram naquele momento, como nós já fraquejámos em tantos momentos.

«Digo-vos, porém, a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam.» Lc 6,27-28
No entanto, amar os nossos inimigos, amar aqueles que nos ofendem, não é a mesma coisa que amar os nossos familiares ou amigos.
Como o amor dos esposos não é a mesma coisa que o amor dos pais pelos filhos, ou o amor entre irmãos, ou o amor que os amigos têm uns pelos outros.
Amar aqueles que nos ofendem significa estar disponível para eles, ajudá-los se precisarem de nós, não guardar rancor, nem ressentimento em relação a eles.

Mas não podemos falar do perdão sem nos colocarmos do outro lado, ou seja, do lado daqueles que ofendem, que magoam, que ferem os outros com palavras, com gestos, com atitudes.
Porque também, com certeza, cada um de nós já ofendeu alguém, muito ou pouco, e precisou de sentir o perdão daqueles que ofendeu para ter paz na sua vida.
É que podemos falar e meditar sobre os passos que temos de dar para perdoarmos aos outros, mas temos também que falar e meditar nos passos que temos que dar para pedirmos perdão aos outros.
Porque só quem é capaz de pedir perdão é que é capaz de perdoar.

Alguém pode dizer que na sua vida nunca magoou ninguém?
Claro que não, porque como pais, ou como filhos, como marido ou como mulher, como amigos ou conhecidos, como patrões ou empregados, ou até com alguém que nem conhecemos bem mas de quem já dissemos mal, às vezes apenas porque repetimos o que alguém nos disse, por todos esses motivos já ofendemos alguém com certeza.
Então precisamos de saber vencer o nosso orgulho, precisamos de nos saber confrontar com o nosso erro, não arranjando desculpas para o que fizemos, e pedirmos perdão a quem ofendemos.
E quando vivemos esta verdade de que também nós ofendemos os outros e temos de pedir perdão, também compreendemos melhor aqueles que nos ofenderam, e com mais facilidade podemos perdoar, como fomos perdoados.
Mas aqui, sobretudo quando ofendemos, temos que ver ainda uma outra dimensão do perdão e que é o perdão a nós próprios.
Porque quando ofendemos alguém e nos apercebemos disso, ficamos envergonhados e recriminamo-nos, tendo muitas vezes dificuldades em percebermos como fomos capazes de fazer, de cometer essas ofensas.
Então temos que perceber que o amor de Deus é muito superior aos nossos pecados e se Ele nos perdoa também nós nos devemos perdoar, porque se assim não fizermos é como se estivéssemos a negar o perdão de Deus a nós próprios.
Por vezes depois de uma vida desregrada como a que eu tive antes da minha conversão, temos alguma coisa que quase nos mete medo, quando pensamos em tantas coisas más que fizemos e como é possível que Deus nos perdoe.
E então temos dificuldades em perdoarmo-nos, como se aquilo que fizemos cortasse para sempre a nossa comunhão com Deus.
Temos então de acreditar firmemente que o amor de Deus é muito maior que o nosso pecado e que Ele nos ama mesmo quando nós não O amamos.
Quando pela graça da Confissão percebemos, aceitamos e vivemos o perdão de Deus, o amor de Deus, percebemos então que sendo filhos de Deus, recebemos d’Ele o perdão para nós e para os outros.
Em paz com nós próprios, podemos também pedir e fazer a paz com os outros.
É isso aliás que dizemos no Pai Nosso, dirigindo-nos ao Pai dizendo, “perdoai-nos como nós perdoamos”.

E não é isso o que nos diz a parábola que Jesus Cristo nos conta no Evangelho?
O senhor perdoou aquele servo, mas ele não foi capaz de perdoar àquele que lhe devia. A sua falta de perdão ao outro acabou por cair em cima de si próprio. Ao não perdoar também não foi perdoado.
Mesmo interiormente, nas nossas vidas, quando não perdoamos e vivemos no rancor e no ressentimento, apenas fazemos mal a nós próprios.
Porque a falta de perdão leva ao rancor, ao ressentimento, à vontade de vingança, e todos estes sentimentos envenenam as nossas vidas.
Passamos a viver amargurados por causa daquele que nos ofendeu, e se nas nossas vidas temos de nos cruzar permanentemente com aquele que nos ofendeu, a ferida é reaberta, volta a magoar-nos, a ferir-nos, e às vezes vai tão longe esse sofrimento, que nos faz fazer coisas de que depois nos arrependeremos e que podem desgraçar as nossas vidas, como por exemplo, agir contra a vida daquele que nos ofendeu.

E Deus sabe isto tudo e por isso nos diz que devemos perdoar sempre, sem medida nem dimensão, porque Ele sabe que só o perdão traz paz, serenidade e felicidade às nossas vidas.
Porque Ele sabe que só perdoando podemos viver a vida como Ele mesmo nos pede no Seu mandamento maior:
«Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos».

4 comentários:

Danilo Badaró disse...

No misério nupcial, o perdão é vivenciado de diversas maneiras.

No tema do divórcio, por exemplo. Se alguém vive essa trágica experiência, precisa estar aberto ao perdão do cônjuge. Isso significa não se casar de novo, pois essa dura decisão demonstra inequivamente que se está aberto ao perdão. Cristo, o Esposo, do alto da cruz, abandonado pela Esposa-Igreja, perdoou. Também os que se separaram precisam estar assim. O leito vazio é sinal do perdão. Casar-se de novo é enterrar de vez a possibilidade do perdão.

Canela disse...

Maravilhosa reflexão sobre o perdão!

Vivi anos, subjugada a multiplas depressões. Bati a várias portas (profissionais de saude, entenda-se)... desesperada e ainda afastada da igeja, pedi para alguem rezar por mim, dias depois piorei... foi nessa altura que entrei na Igreja, sobre outro pretexto, a primeira coisa que senti falta... foi da Sagrada Comunhão!
Confessei-me.... e "nessa" confissão, recordo a repetição da mesma questão: Tu Queres perdoar?

Várias foram as vezes, que em oração pedia a Dom do Perdão... um dia chegou essa grande benção, e a cura das multiplas depressões foi "milagrosa", ainda hoje estou na lista de espera para psicoterapia (2 anos), mas já não necessito... o perdão passa 1º pela nossa vontade, e, depois pela acção de Deus N. Senhor.

Quantas vezes tenho perdoado? Já perdi a conta... por muito que me custe fazê-lo, decido-me sempre por querer perdoar... pois já descobri que o segredo da minha saúde passa pelo perdão!

O ressentimento mata-nos lentamente, é como ingerir veneno em pequenas doses... não é fácil... é um caminho doloroso é certo, mas é esse o caminho.

A Paz de Cristo

joaquim disse...

Meu caro Danilo Badaró

Obrigado pela tua visita.

Confesso que não entendo muito bem aquilo que nos queres transmitir.

Ao falares de divórcio referes-te seguramento as casamento civil, visto que o Sacramento do Matrimónio não contempla o divórcio.

Assim, meu amigo, não me parece que o perdão entre os divorciados só possa existir se eles não casassem de novo, porque isso era reduzir a capacidade de perdoar.

Já se te referes ao Sacramento do Matrimónio, várias considerações são possiveis, até porque como sabes, se o Sacramento for válido, aqueles que se separarem nunca poderão casar de novo.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Cara amiga Canela

Encontraste o caminho mais seguro para o perdão!

A Confissão que nos revela o amor de Deus, o Seu infinito perdão e que nos leva também a perdoar.

Se vivermos, como muito bem dizes, no ressentimento e no rancor apenas nos "envenenamos" a nós próprios.

Obrigado pelo teu testemunho.

Abraço amigo em Cristo