18 maio 2010

Bento XVI - 1

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Ontem estive em Fátima, na igreja da Santíssima Trindade para rezarmos as Vésperas com o Papa Bento XVI.
Foi algo que me foi oferecido e que eu agradeço a Deus do mais fundo de mim próprio.
Claro que tinha de escrever sobre tudo isto!
Sentado aqui, com este teclado na minha frente, deixo extravasar as minhas emoções e as minhas vivências destes dias.

Bento XVI é uma figura frágil, quase apagada, tímida, e no entanto a sua presença faz-se sentir e toma conta de nós.
João Paulo II apresentava-nos a fragilidade da doença que como um verdadeiro mártir abraçava, tenho a certeza por todos nós.
Bento XVI apresenta-nos também uma fragilidade, de tal modo que dá vontade de o proteger, mas quando olha, quando fala, quando ora, percebe-se a firmeza, a segurança, a radicalidade da entrega confiante.
Cada um dos seus gestos é uma expressão da interioridade da Fé que vive e à qual se entrega, e percebe-se que todos eles têm uma explicação doutrinal e catequética.
Nada é dito que não tenha importância e em todas as suas palavras há um profundo ensinamento.
Percebe-se, digo eu, que mesmo reconhecendo-se a si próprio como homem profundamente inteligente e de cultura absolutamente invulgar, reconhece que nada disso serve para nada se não for iluminado pelo Espírito Santo que o conduz.
E percebe-se isso, digo eu, porque cada momento de pausa, (e ele provoca muitos momentos de pausa), são passados em profunda oração, como a esperar a condução do Espírito para o próximo momento.
Poderemos dizer que as homilias já estão escritas, é certo, mas atrevo-me a dizer que foram escritas em oração e iluminadas pela oração que constantemente toma conta dele.
O sorriso é tímido, quase envergonhado, mas é ao mesmo tempo de uma humildade confiante, desconcertante.
O brilho nos olhos muito vivos, revela uma paz e uma confiança que vão muito para além das suas capacidades, porque são a certeza do Emanuel, o Deus connosco, que ele não cessa de repetir à saciedade: Jesus Cristo está connosco, está no meio de nós!
E as suas palavras revelam isso mesmo.
Num mundo que quer encontrar um deus que sirva as suas necessidades, Bento XVI afirma-nos contra a corrente que provavelmente andamos enganados, pois Deus não se encontra fora, mas sim e primeiro dentro de nós e nos outros.
Afirma aos sacerdotes e a todos nós, que Deus se encontra em nós na oração, na prática diária do amor, e não na azafama das coisas que não têm a ver com a missão, seja ela sacerdotal, seja ela a de simples leigos discípulos de Cristo.
Essas virão por acréscimo, e serão abençoadas por Deus, porque se Ele vive em nós, também por Ele são queridas e abençoadas.
É o recentrarmo-nos em Cristo, fonte, princípio e fim de todas as coisas, porque só n’Ele, com Ele e por Ele, essas mesmas coisas têm sentido.
Em Fátima mesmo sem o dizer, ele diz-nos que Maria só pode ser entendida e “usufruída” quando iluminada por Cristo.
E então, quando assim é, que poderosa intercessora, que insigne advogada, temos na Mãe que o próprio Senhor nos quis dar.

Ao ouvir, ver e tentar perceber Bento XVI, questiono os meus saberes, as minhas certezas, e fico incomodado com as minhas vaidades e os meus orgulhos, percebendo então que nada sou e que só quando me entrego verdadeiramente a Jesus Cristo, tudo o que me foi dado saber, aprender e viver, tem sentido e pode servir aos outros.

Esta será para mim uma primeira lição, e que importante lição, saber que devo viver na entrega constante, porque só quando me entrego totalmente e deixo que Deus faça em mim, eu sou verdadeira “imagem e semelhança” d’Ele, e que só assim posso ser para os outros o que Jesus Cristo é para mim e em mim.

Monte Real, 13 de Maio de 2010
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