06 maio 2011

«Meu Senhor e meu Deus!»

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Quando eu era menino, uma das primeiras coisas que os meus pais me ensinaram, bem como na catequese, foi a oração “ideal” para se rezar durante a elevação da Hóstia e do Cálice na Consagração: «Meu Senhor e meu Deus!»

De tal modo assim rezei sempre ao longo desses verdes anos, durante a Consagração, que ficou em mim enraizada essa prática, por isso mesmo uma das primeiras a ser recordada, quando ao fim de muitos anos de afastamento, reencontrei a Fé e a Igreja, pela graça de Deus.

Mas confesso que essa oração saía muito mais da minha boca, numa forma rotineira, do que verdadeiramente uma oração do coração, meditada e abarcada em toda a sua dimensão espiritual de afirmação de Fé, em Jesus Cristo.

Julgo até, (a memória não me ajuda), que durante muito tempo, nem sequer liguei essa oração ao “credo” proferido por São Tomé, quando do seu encontro com Jesus Cristo ressuscitado.

No entanto, essa ligação indelével entre a passagem bíblica e o presente tempo, ao rezar essa oração, tem-me surgido como reflexão, como meditação, e este ano mais ainda no Domingo passado, em que foi proclamado esse Evangelho.

Como nos narra o Evangelho de São João 20, 24-29, Tomé não acreditou, quando os seus irmãos Apóstolos lhe disseram que tinham visto o Ressuscitado.

Respondeu-lhes, como nós hoje em dia tantas vezes respondemos, um tanto displicentemente, uma qualquer frase do tipo: “Pois sim, está bem, mas só se eu vir com os meus olhos e tocar com as minhas mãos.”

Passados oito dias, (sempre no primeiro dia da semana), Jesus Cristo apresentou-se novamente diante deles e convidou Tomé a ver com os seus olhos e a tocar com as suas mãos.

Tomé, não era com certeza um céptico, até queria acreditar, mas estava preso da sua humanidade.

Ora quem tem o coração aberto à fé, ao ser encontrado, ao encontrar-se com Jesus Cristo, nunca fica indiferente, e a relação puramente humana e racional, adquire uma nova dimensão espiritual, que permite “ver” o que os olhos do corpo não vêem.

Jesus Cristo convidou Tomé a pôr as mãos nas suas chagas, mas o Evangelho não nos diz que ele assim terá feito.

O Evangelho diz sim, que Tomé, imediatamente a seguir ao convite de Jesus, respondeu apenas: «Meu Senhor e meu Deus!» Jo 20, 28

Perante o encontro pessoal com Jesus Cristo, Tomé faz a profissão de fé mais explícita até então feita pelos Apóstolos.

Porque nesse encontro Tomé acreditou, e ao acreditar, pode “ver” para além do que os olhos do seu corpo lhe mostravam, e assim pode “ver” a Pessoa de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Se eu, no momento da Consagração, repito essa oração apenas rotineiramente, se não a torno uma oração de coração aberto à presença real de Jesus Cristo, então apenas posso ver com os olhos do corpo, e apenas vejo um pouco de pão branco de forma redonda, e um cálice com vinho.

Mas se eu me abro à presença real de Jesus Cristo na Consagração, então os meus olhos passam a ser os olhos do coração, passam a ser os olhos da fé, e o que eu vejo com os olhos do corpo, toma a dimensão real e verdadeira do Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, na Hóstia e no Cálice consagrados.

Então não me resta mais nada, como Tomé, a não ser proclamar: «Meu Senhor e meu Deus!»

«Felizes os que crêem sem terem visto!» Jo 20, 29, diz Jesus a Tomé.

E eu medito nesta frase e quero perceber que aqueles que hoje acreditam, vêem pela fé, porque os olhos do corpo apenas lhes mostram um pouco de pão e um cálice com vinho.

E assim são felizes, porque para “verem”, não o podem fazer apenas por si próprios, mas pela graça de Deus, que lhes concede o dom da fé, que os leva a ultrapassarem a sua própria humanidade, e a “verem” para além de si próprios.

Glória ao Senhor!


Monte Real, 5 de Maio de 2011
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21 março 2011

Um Tema para a Quaresma - O Perdão

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Evangelho segundo S. Mateus 5,20-26.

Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»
«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo.
Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco’ será réu da Geena do fogo.
Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta.
Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão.
Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»


Que belo e profundo tema para a Quaresma: o perdão!

Não apenas o perdão que sai da boca, mas não chega ao coração.

Não aquele perdão de palavras, que é acompanhado interiormente por um “perdoar, perdoo, mas não esqueço”.

É que esquecer não podemos, porque temos a memória que Deus nos deu, mas podemos recordar sem mágoa para nós, nem ressentimento àquele que nos ofendeu, e quando aquela frase toma conta de nós, significa no fundo que não perdoámos.

Mas sim o verdadeiro perdão, aquele que traz a paz e o amor, e nos faz viver a alegria de sermos irmãos em Cristo, filhos de Deus.

O perdão aos outros, àqueles que nos ofendem, mas também o perdão a nós próprios, porque tantas vezes, pelas nossas fraquezas nos deixamos levar por vícios, que apenas nos prejudicam e magoam.
Por vezes é tão difícil enfrentarmos os nossos erros, e perdoá-los em nós.

Olhemos para trás também, para a nossa infância e adolescência, e percebamos se houve algo com os nossos pais, os nossos irmãos, os nossos professores, com aqueles que tiveram algum ascendente sobre nós, e nos magoou.
Perdoemos então, do fundo do coração, para que a paz se instale em nós, e possamos viver o presente, recordando com alegria o passado.
É que por vezes há coisas do passado que ensombram o nosso presente e nós não nos apercebemos disso.

Perdoemos também à Igreja, ao Papa, aos Bispos e Sacerdotes, se alguma vez nos sentimos menos amados, incompreendidos, ou até nos sentimos excluídos, porque não fomos atendidos com amor, com dedicação, com entrega, porque houve momentos em que a Doutrina nos foi difícil, nos magoou, nos entristeceu.
Perdoemos então, para vivermos em comunhão.

E não estamos nós por vezes “zangados” com Deus?
Porque Ele não nos concedeu o que queríamos, ou permitiu que acontecesse na nossa vida, aquilo que não desejávamos?
Então perdoemos a Deus também, compreendendo que se algo não nos foi concedido, ou se algo foi permitido na nossa vida, foi para o nosso bem, porque só Ele sabe do que precisamos e só Ele consegue tirar do mal o bem.

E em todas estas ocasiões, somos nós muitas vezes os ofensores, por isso não nos esqueçamos então de pedirmos perdão por tudo aquilo que fizemos a outros, e não queremos que nos façam a nós.
Ou melhor, como nos ensina Jesus Cristo, façamos aos outros justamente aquilo que queremos para nós.

Revestidos do perdão, cheios de amor, edificados na Palavra de Deus, rezemos então:

Obrigado Senhor, porque me amas, e no Teu amor me fazes amar o meu irmão, me reúnes em família, me ensinas a viver em comunhão, e me exortas a amar-Te cada vez mais.
Amen.


11 janeiro 2011

SALMO DE UM CEGO

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Senhor,
prostrado por terra,
ergo as minhas mãos para o Céu.

De onde me vem o auxílio?
De onde me vem a paz,
a serenidade, e a vida?

Apenas de Ti,
Senhor.

Cego pela luz do mundo,
avanço aos tropeções,
quero ver,
mas não vejo,
porque não acredito verdadeiramente.

Só Tu,
Senhor,
és a luz que rompe as trevas,
da minha cegueira.

Abre,
Senhor,
os olhos do meu coração,
para que,
acreditando no amor,
Te possa eu ver,
Senhor.





Monte Real, 7 de Janeiro de 2011
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02 dezembro 2010

ADVENTO

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Sentado à beira da estrada,
espero.
Não me movo,
não faço nada,
apenas espero.
Perder este momento,
não quero!
Por isso me aquieto,
até os olhos fecho,
para que nada me distraia.
Perder este momento,
não quero!
Disseram-me que Ele vinha,
que havia de aqui estar,
no meio de nós,
como eu,
como tu,
como cada um de nós,
e eu…
perder este momento,
não quero!
Por isso aqui estou,
imóvel,
sentado na estrada,
à espera que Ele passe,
que Ele se mostre,
que Ele venha ao meu encontro,
porque…
perder este momento,
não quero!
Passa gente e mais gente,
mais apressados uns,
mais lentos outros,
e eu fico-me a pensar:
Será que não sabem que Ele vem?
Será que não sabem
que devem esperar?
Mas eu nada lhes digo,
nem de nada os informo,
não me quero distrair,
porque…
perder este momento,
não quero!
Passam as horas,
os dias também,
parece que já me falta o tempo,
mas eu,
imóvel,
espero,
porque…
perder este momento,
não quero!
Sinto uma mão no ombro,
alguém me quer distrair,
e olho com ar zangado,
para quem assim me interrompe,
sem deixar de estar sentado,
à beira daquela estrada,
porque…
perder este momento,
não quero!
Ouço então aquela voz,
que me diz em tom suave:
Que fazes aqui sentado,
imóvel,
sem fazer nada.
Já todos há muito partiram,
vão todos em caminhada,
vão correndo alegremente,
a ver onde o Rabi mora,
a ver onde Ele nasceu,
e tu aqui sentado!
Mas eu…
balbucio e digo:
Eu estou aqui parado,
quieto, imóvel,
é por Ele que eu espero,
porque…
perder este momento,
não quero!
A voz diz-me então
em tom suave mas firme:
Levanta-te homem,
e caminha!
Endireita as veredas,
prepara o Seu caminho!
Caminha sobre as pedras,
que não te poderão ferir,
sobe às montanhas mais altas,
aquelas que te não deixam ver,
endireita todas as curvas,
que insinuam a tua vida,
retira do teu olhar,
as traves que lá colocaste,
abre a tua boca e canta,
afoga o teu lamento,
abre-te tão livremente,
que nada te pese,
nem segure
e deixa-te levar pelo Vento.
Não fiques à espera,
caminha,
parte ao Seu encontro,
porque sentado imóvel,
nada fazes,
nem fruto dás.
Porque para O encontrares,
e por Ele seres encontrado,
precisas de fazer o bem,
a ti,
e a quem está a teu lado.
Faz a viagem para fora,
caminha dentro de ti,
procura os outros,
encontra-te,
e então…
vais encontrá-Lo,
numas palhinhas deitado,
no mais bonito presépio,
que é o teu coração.




Monte Real, 30 de Novembro de 2010
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12 novembro 2010

OS “PORMENORES”

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À medida que fui conduzido a cada vez mais ler e meditar a Palavra de Deus, foi-me dado ir descobrindo os tesouros que a Palavra contém em todos os seus “pormenores”.

Com efeito, confesso que aqueles textos que melhor conhecia da Bíblia, tantas vezes os lia por ler e sem neles me deter.

Mas a Palavra de Deus é viva e o Espírito Santo mostra-nos, (se realmente quisermos escutar), toda a verdade e beleza que Ela contém.

Provavelmente nada direi de novo àqueles que me lêem, mas acompanhem-me, na leitura deste texto dos Actos dos Apóstolos, por exemplo, e atentemos aos “pormenores” que São Lucas, inspirado pelo Espírito Santo, nos dá a conhecer.


Cerca da meia-noite, Paulo e Silas, em oração, entoavam louvores a Deus, e os presos escutavam-nos. De repente, sentiu-se um violento tremor de terra que abalou os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as cadeias de todos se desprenderam.
Acordando em sobressalto, o carcereiro viu as portas da prisão abertas e puxou da espada para se matar, pensando que os presos se tinham evadido. Paulo, então, bradou com voz forte: «Não faças nenhum mal a ti mesmo, porque nós estamos todos aqui.» O carcereiro pediu luz, correu para dentro da masmorra e lançou-se a tremer, aos pés de Paulo e de Silas.
Depois, trouxe-os para fora e perguntou: «Senhores, que devo fazer para ser salvo?» Eles responderam: «Acredita no Senhor Jesus e serás salvo tu e os teus.» E anunciaram-lhe a palavra do Senhor, assim como aos que estavam na sua casa.
O carcereiro, tomando-os consigo, àquela hora da noite, lavou-lhes as feridas e imediatamente se baptizou, ele e todos os seus. Depois, levando-os para cima, para a sua casa, pôs-lhes a mesa e entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus. Act 16, 25-34


«Paulo e Silas, em oração, entoavam louvores a Deus, e os presos escutavam-nos.»

Paulo e Silas, lemos nos versículos anteriores, tinham sido despidos, vergastados e atirados para o calabouço, onde ficaram com os pés presos no cepo.
E louvavam a Deus!
Ora, muito provavelmente, cada um de nós nas mesmas circunstâncias lamentar-se-ia, revoltar-se-ia protestando a sua inocência, reclamaria justiça e com certeza vociferaria contra aqueles que nos tinham prendido.
Com este nosso procedimento, os outros presos juntar-se-iam a nós, protestando igualmente a sua inocência, revoltando-se e fazendo barulho, ou seja, o nosso testemunho para nada serviria.
Mas Paulo e Silas louvam o Senhor na adversidade, e assim procedendo, os outros presos escutam-nos, com certeza perplexos, perante o testemunho de confiança daqueles dois homens no seu Deus e Senhor.
E na oração de louvor, o Senhor responde àqueles que O procuram e n’Ele confiam, e «todas as portas se abriram e as cadeias de todos se desprenderam», dando assim a conhecer àqueles outros presos o poder de Deus e o Seu amor por aqueles que O amam.

«…puxou da espada para se matar»

Aquele homem queria pôr fim à sua vida e acabou por encontrar uma vida nova!
Não só manteve a vida que já tinha, mas descobriu agora uma vida nova, aquela vida que tem sentido, a vida em Deus e para Deus, que leva sempre à esperança e nunca ao desespero, porque não depende das coisas do mundo, mas sim das coisas do Alto.
Queria matar-se porque tinha medo do que lhe podia acontecer no mundo, e acaba por viver porque lhe é dado a conhecer a confiança e a esperança que estão sempre presentes na vida para o Alto.


«…porque nós estamos todos aqui»

Curiosamente a reacção daqueles outros presos, que deveria ser a fuga do calabouço em que estavam presos, é afinal, ficarem junto de Paulo e Silas, no mesmo lugar onde lhes tinham tirado a liberdade.
Porque, com certeza estupefactos, queriam perceber que Deus era aquele que tais prodígios fazia, não só dando confiança e esperança a Paulo e Silas em tão grande adversidade, mas também libertando os que estavam cativos.
Podemos afirmar, acredito eu, que naquele lugar de prisão, eles tinham encontrado a liberdade dos filhos de Deus, que mesmo vivendo no mundo, já vivem a liberdade da salvação prometida.


«O carcereiro pediu luz…»

Sim, com certeza, pediu luz para alumiar, para ver o que se passava na prisão.
Mas também, com certeza, perante aquilo que estava diante dos seus olhos, no seu íntimo deve ter dirigido uma palavra àquele Deus, nem que fosse um simples: «O que é isto? O que se passa? Quem és Tu que fazes tais coisas?»
E o Senhor iluminou-o com a Sua luz, de tal modo que a sua primeira pergunta àqueles homens, Paulo e Silas, é: «Senhores, que devo fazer para ser salvo?»
E, «quem procura, encontra» Lc 11, 10


«O carcereiro, tomando-os consigo, àquela hora da noite, lavou-lhes as feridas…»

Aquele que os tinha presos, aquele que os tinha acorrentado, é aquele que agora os serve, lavando-lhes as feridas!
O que mandava, o que tinha a autoridade, é agora servo para os seus irmãos que dele necessitam.
O carcereiro é agora o Bom Samaritano!
Pois claro, porque quem é iluminado pela luz de Deus não permanece igual, é convertido, converte-se, e assim deve tornar-se irmão de todos e servo de todos, sobretudo daqueles que dele necessitam.
Não foi isso que Jesus Cristo nos ensinou quando lavou os pés aos Seus Apóstolos e dizendo «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» Mc 9, 35


«Depois, levando-os para cima, para a sua casa, pôs-lhes a mesa e entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus.»

Levou-os para cima, e pôs-lhes a mesa!
«Mostrar-vos-á uma grande sala mobilada, no andar de cima. Fazei aí os preparativos.» Lc 22,12
A Última Ceia! A Eucaristia! A presença do Deus vivo!
À volta da mesa, partilhando o pão!
Com certeza que Paulo e Silas celebraram a «fracção do Pão», como era uso nas primeiras comunidades cristãs.
E na «fracção do Pão», aquele homem com a sua família vivem a «alegria de ter acreditado em Deus»!
Na «fracção do Pão», a alegria de reconhecer e acreditar no Senhor, como os discípulos de Emaús, (Lc 24, 31), que cheios de alegria e coragem, regressaram a Jerusalém para anunciarem a Ressurreição de Jesus Cristo!


Assim, no Grupo de Oração ontem, na leitura deste texto dos Actos dos Apóstolos, (que já tantas vezes tinha lido), foi-me dado descobrir estes “pormenores”, que para além de me exortarem à verdadeira conversão, me confirmam como a Palavra de Deus é viva e actuante.

Não sou exegeta da Bíblia, nem pretendo sê-lo.
Haverá algo com certeza a dizer sobre as traduções das Bíblias.
Mas o que importa verdadeiramente é deixarmo-nos tocar pela Palavra de Deus, deixarmo-nos conduzir por Ela, sempre em comunhão de Igreja, e atendendo sempre à Verdade revelada, à Doutrina da Igreja, na certeza de que a Palavra apenas pode edificar, unir e levar à comunhão, e tudo o que a isso for contrário, é interpretação apenas nossa, que como tal devemos colocar de lado.
E o Espírito Santo prometido por Jesus Cristo, está em todos e ilumina todos aqueles que a Ele se entregam e por Ele se deixam conduzir.


Monte Real, 9 de Novembro de 2010
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11 agosto 2010

A Pergunta Crucial

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«Quem dizem as multidões que Eu sou?» Lc 9,18

Se hoje, Senhor Jesus, fizesses esta pergunta, como Te responderiam as multidões?

Uns dir-Te-iam que não exististe, e que nem sequer existes.
Outros dir-Te-iam que foste uma figura histórica, um revolucionário, um homem com um pensamento avançado para a sua época.
Outros dir-Te-iam ainda que não soubeste “cavalgar a onda do poder” e mudar tudo o que estava mal.
Uns quantos dir-Te-iam também que foste um grande meditador transcendental, uma espécie de mestre de yoga dos tempos antigos.
Mais uns quantos fingirão que nunca ouviram falar de Ti, ou que, não lhes interessa nada o que Tu foste ou possas ser.
Finalmente, uns quantos afirmando que Tu não exististe, desejarão mesmo que não tivesses existido.


«E vós quem dizeis que Eu sou?» Lc 9,20

E se hoje, Senhor Jesus, fizesses esta pergunta àqueles que se dizem Teus seguidores, o que responderíamos nós?

Uns dir-Te-ão que sim, que Tu és o Filho de Deus, que nos trouxeste uns ensinamentos que devemos seguir segundo a nossa consciência, e que é a nossa consciência e só a nossa consciência a luz do nosso proceder.
Estes dir-Te-ão, sem dúvida, que a instituição da Igreja é uma mera interpretação que alguns fazem da Bíblia, porque verdadeiramente cada um sabe de si e da sua vida e que a Igreja não é precisa para nada.

Outros dir-Te-ão que Tu és o Filho de Deus, e que tudo o que Tu nos disseste e está nas Escrituras deve ser seguido exactamente como está escrito, que não há lugar a interpretações, que uns são escolhidos e outros excluídos, e que apenas e só nessa radical leitura e seguimento, se será verdadeiramente Teu discípulo.

Outros ainda dir-Te-ão que Tu és o Filho de Deus, mas que tudo aquilo que Tu nos disseste se destinava apenas àquele tempo e que por isso mesmo, tudo se deve adaptar aos tempos de agora, e assim sendo, a vida pode ser questionada, seja ela na gestação inicial, seja ela na sua recta final.
Que as relações entre mulheres e homens devem ser ao gosto de cada um, porque isso pertence ao homem definir, e aquilo que Tu nos disseste sobre isso mesmo, era apenas para aquele tempo, para aquela cultura.
Dir-Te-ão que nós homens já “matámos” o demónio, porque o “dito cujo” nunca existiu.
Dir-Te-ão que a Igreja, é afinal as igrejas, edifícios onde vão rezar, (de pé, claro), e que toda a estrutura da Igreja são afinal apenas meros funcionários ao sabor das vontades de cada um, bem como a Doutrina, que deve ser seguida segundo a própria interpretação dos que assim pensam, e sempre mudando ao sabor dos tempos.

E outros tantos Te dirão isto e aquilo nas mais variadas formas e interpretações, reclamando-se como teus verdadeiros seguidores e teus legítimos “intérpretes”.

E haverá, finalmente, aqueles, (e eu espero bem ser um deles), que Te responderão dizendo:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» Mt 16,16

E nesta revelação, «porque não foi a carne nem o sangue que no-lo revelou, mas o Pai que está no Céu» Mt 16,17, tudo estará contido e aceite como Caminho, Verdade e Vida, desde o Filho de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor, à Igreja e à Doutrina, que Tu mesmo nos ensinaste e deixaste.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
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13 julho 2010

A centralidade da Palavra

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Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.»
O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.» Lc 10,38-42

«Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»

Maria escolheu a Palavra!
A Palavra é o próprio Deus.
Sem a Palavra nada mais tem sentido.
Por isso a Palavra é central à vida de todo o cristão e toda a sua vida tem de ser orientada e vivida pela Palavra.
E a centralidade da Palavra é perfeitamente compreendida nesta passagem da Bíblia.

Reparemos que antes deste encontro com Marta e Maria, o evangelista Lucas nos narra a Parábola do Bom Samaritano, contada por Jesus para bem fazer entender o mandamento do amor. Lc 10, 25-37
Esta parábola leva-nos à vivência do amor, a Deus e aos outros, leva-nos a entender que a nossa vida cristã tem de ser também acção, obra, testemunho permanente do amor de Deus em nós, e para os outros
Ora este amor de Deus a cada um e de cada um para os outros, é-nos transmitido na Revelação do próprio Deus, é-nos transmitido portanto, na Palavra e pela Palavra.
Mas a seguir, Lucas conta-nos como Jesus ensinou os seus discípulos a orarem, prosseguindo com vários ensinamentos sobre a oração. Lc 11,1-4ss
A oração, alimento do cristão, é-nos então dada na Palavra, sai da Palavra e é suscitada pela Palavra.
Maria, sentada aos pés de Jesus, tem não só uma atitude de escuta, mas também uma atitude orante, que leva à intimidade com o Senhor.
E não é a oração individual, (e até a colectiva), um diálogo íntimo e pessoal com Jesus Cristo?
Não é na oração que amamos a Deus, que Lhe prestamos o nosso louvor e até intercedemos pelos outros?
Não é na oração que nos unimos a Cristo, e que com o mesmo Cristo, nos unimos aos outros?

Então é a escuta da Palavra que nos leva á oração, pela oração à comunhão com Cristo e com os outros, e nessa comunhão à acção vivida do mandamento do amor.

Então a Palavra, que se faz e nos leva à oração, faz também da acção uma oração na vivência da Palavra!

Então acolher a Palavra e vivê-la, é fazer da vida uma oração, no diálogo e na acção, nas obras, tudo em comunhão com Deus, que se faz tudo em nós, servindo-se de nós na nossa entrega ao seu amor.

A oração de hoje, podemos esquecê-la amanhã, a acção de hoje sairá da nossa memória passado um tempo, mas a Palavra fica, e é semente permanente que dá fruto na oração e na acção.

Por isso:
«Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»
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